ARTIGO

A sociedade do mercado

17 AGO 2026 • Por GILBERTO VERARDO • 11h58

A organização social continua refém de um único modo de vida: aquele regido pelas leis do Mercado - com maiúsculo mesmo, para ser um substantivo que conceitua as relações humanas na contemporaneidade global.Tudo virou um grande Mercado. Falar em Humanismo parece eufemismo consentido de vez em quando pelas imponentes leis do Mercado, quando abrem pequenas brechas para manifestações de certa humanidade, como certos tipos de violência contra mulheres, crianças ou até de animais, numa vã tentativa de mostrar seu lado bonzinho, querendo manter um pseudo charme da sociedade de mercado. Não há como disfarçar um tremendo mal estar civilizatório nas maiores metrópoles e também nas pequenas cidades algemadas a esse modelo socioeconômico. 

Não há dúvida que o mercado engoliu literalmente os pequenos fragmentos de humanidade que ainda existiam nas relações das pessoas, impondo uma legitimidade mercadológica para trocar tudo, inclusive afetos e amizades. E esta aldeia global se tornou um grande Mercado a olhos nus, em lugares abertos ou fechados. 

Para manter este mercado, as manufaturas se tornaram uma arma estratégica. A última fronteira, a China, não resistiu aos seus encantos. Seu transporte diário congestionou terras e mares, e o ar foi perdendo sua pureza. Nenhum lugar foi poupado deste frenesi mercadológico.

Aqui, em MS, uma pequena região protegida pela UNESCO como patrimônio cultural da humanidade, o Pantanal, mesmo possuindo reconhecimento oficial como Reserva da Biosfera, título recebido no ano 2000, que também abrange partes reconhecidas como Patrimônio Natural da Humanidade, títulos estes que incentivam ações de desenvolvimento sustentável a nível global, conseguiu escapar ileso da sanha do mercado. E os irmãos Batista se tornaram os arautos da hipermodernidade mercadológica, cavoucando a terra pantaneira para vender ferro  bruto ao grande mercado, deixando um rastro de poeira vermelha por onde passa.  Mais uma vez, as leis do Mercado corromperam aquele santuário ecológico, sob as vistas e as bênçãos de governantes pouco intencionados com o bem comum maior(ecossistema).

Que falta nos fazem, neste momento, entidades como a Sodepan de Nilson de Barros, Ecoa de Alcides e Miska Tomé, entre muitas outras pessoas e artistas que realmente se importavam com o meio ambiente, dentre poucos o Grupo ACABA. Bom lembrar aqui, neste momento delicado para o bioma, do ambientalista e jornalista Francisco Anselmo Gomes de Barros, conhecido como Francelmo, que ateou fogo ao próprio corpo em 12 de novembro de 2005, no calçadão da Rua Barão do Rio Branco, em Campo Grande (MS). O ato extremo foi um protesto contra um projeto do governo estadual que autorizava a instalação de usinas de álcool e açúcar na Bacia do Alto Paraguai, ameaçando o Pantanal. Ele faleceu no dia seguinte, em 13 de novembro de 2005. O governador era José Orcírio - Zeca do PT.  O presidente da República Luís Inácio Lula da Silva. Os vivos, decepcionados, se retiraram da luta ambiental, deixando um vácuo, depois ocupado pelos neoambientalistas plantados em órgãos públicos, a dar legalidade à fome de expansão da sociedade de mercado. O Estado Democrático de Direito e suas criativas normas jurídicas também se renderam aos encantos da sociedade mercantil. Até o famigerado gás de efeito estufa - o CO2, entrou no Mercado. Nada escapa da fome mercadológica. 

Por enquanto, atrás das porteiras, os tradicionais pantaneiros resistem como podem, resguardando fauna e flora da sanha predatória do mercado, que com seu poder de devastação conhecido, conta ainda com a proteção de ideologias e governantes apaixonados por um decadente modelo desenvolvimentista. É o fim dos tempos, como diriam os mais velhos. Os mais novos nada dizem ou fazem. Talvez se distraem com brinquedos tecnológicos da hipermodernidade. Afe!

(*) Psicólogo humanista