CORUMBÁ A PÉ USA TECNOLOGIA PARA APROXIMAR MORADORES DO SEU PATRIMÔNIO
28 JUN 2026 • Por SILVIO DE ANDRADE • 09h54Caminhar pelo centro e porto geral de Corumbá é voltar a um passado de prosperidade econômico pós-guerra (do Paraguai), entre o final do século XIX a meados do XX. São grandes casarões construídos com influência arquitetônica europeia, mistura neoclássicas, coloniais e ornamentações de diversas origens. Tombado pelo patrimônio histórico nacional, o conjunto refletindo a importância continental da cidade como terceiro maior porto fluvial do Brasil.
A imponência desses bens culturais chama a atenção do visitante, qualificando Corumbá como uma cidade de aspecto urbanístico e paisagístico diferenciado em Mato Grosso do Sul, moldado pelos caminhos das águas do Rio Paraguai e platinas. Elementos ornamentais, fachadas alinhadas ao passeio público e diferentes usos urbanos compõem a identidade visual do conjunto histórico, grande parte de frente para o rio e o Pantanal.
O corumbaense precisa incorporar essa joia cultural ao seu bairrismo, como pertencimento, e assim protege-la e eternizá-la. Várias tem sido as iniciativas (ou tentativas) para que a cidade assuma um dos elementos mais preciosos de sua história de 247 anos, envolvendo, principalmente, os jovens e as crianças. Ainda se depreda, abandona ou descaracteriza um imóvel histórico, ou pior, leva-o ao chão para construir algo que não compõe a paisagem.
Na palma da mão
Na semana passada, A prefeitura de Corumbá, com a participação do campus da Universidade Federal de MS (UFMS), lançou mais um projeto que chega como um novo despertar para atrair a família corumbaense, os turistas e pesquisadores para a valorização do centro (e entorno) histórico. O Corumbá a Pé é um convite pela busca da identidade e referenciar uma bela e encantadora cidade com seus paralelepípedos, palmeiras imperiais e samba no pé.
Com a ajuda da tecnologia para aproximar a população e o visitante, o passeio por essas edificações de grande expressividade se torna mais do que uma aula de patrimônio arquitetônico, num momento crucial em que o município está investindo R$ 21 milhões na restauração de cinco prédios. Por meio da leitura de QR Code, a identificação e a história do imóvel vêm à palma da mão, enquanto se observa a sua grandiosidade arquitetônica.
A iniciativa inovadora contempla 17 exemplares construídos a partir de 1876 (Casa Wanderley & Baís, na Rua Manoel Cavassa, orla portuária). Suas fachadas receberam placas com código de barra e ao apontar a câmera do celular se tem acesso a informações sobre a história, as características de construção e a importância cultural - tornando a experiência de conhecer o centro histórico mais interativa, acessível e educativa com conteúdo digital.
Além do Wanderley & Baís (abriga o Museu de História do Pantanal, Muhpan), foram incluídas na listagem outras construções do século XIX, como o antigo presidio (hoje Casa do Artesão), de 1875; a Catedral de Nossa Senhora da Candelária, de 1885; a alfandega (sede do Iphan, Instituto do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional), de 1896; e a casa comercial Vasquez & Filhos (sede do Memorial do Homem Pantaneiro), de 1898.
Fortalecer identidade
Também figuram o Ila (Instituto Luiz de Albuquerque), Moinho Mato-Grossense (Moinho Cultural Sul-Americano), antiga sede da prefeitura, Casa Marinho, Hotel Galileo, Mercadão Municipal, Santuário de Nossa Senhora Auxiliadora, Escola Municipal Cyriano Félix de Toledo (inaugurada em 1947 pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra), Praça da República (local da retomada de Corumbá, na Guerra do Paraguai), Museu Casa Dr Gabi, Casa e Museu Art Izu e Centro de Convenções do Pantanal.
A Fundação de Desenvolvimento Urbano e Patrimônio Histórico (Fuphan), ao lançar o Corumbá a Pé, aposta na ferramenta e o acesso fácil à história patrimonial para aproximar os moradores, estudantes e visitantes da memória urbana corumbaense e promover sua valorização e proteção. Para a diretora-presidente da fundação, Lauzie Michelle Mohamed Xavier Salazar, despertar a comunidade para sua própria história é vital para esse pertencimento.
“A iniciativa integra ações de educação patrimonial voltadas à valorização da memória urbana, ao fortalecimento da identidade cultural da população e à promoção do turismo cultural em Corumbá”, ressalta Lauzie, que é arquiteta e neta da escultora Izulina Xavier (ícone da cultura pantaneira, falecida em 2022) e trabalhou em vários projetos de restauração no conjunto tombado em 1993 pelo Iphan.
Numa segunda fase, o projeto, que tem o apoio do escritório técnico do Iphan, ampliará o catálogo dos imóveis históricos para 40, contando também com a participação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Estado (CAU). A plataforma (site) de acesso às informações (inclui mapa da área tombada) foi desenvolvida pelos alunos do campus da UFMS que integram o trabalho de extensão "Materialidade e espacialidade das fachadas históricas de Corumbá – MS".
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