ARTIGO

O Pantanal que virou suco

8 MAR 2026 • Por ARMANDO ARRUDA LACERDA • 19h01

Tome-se todas premissas com que os pantaneiros estão confrontando as consequências da atuação das ongs e seus 40 anos de imposição de um modelo importado de leis com resultados, até aqui, inversamente proporcional às boas intenções previstas ao assumirem a conservação que já encontraram num Pantanal, com mais de 100 vezes o número atual de moradores tradicionais, nas fazendas e beiras de rio. 

Misturar as premissas óbvias empíricas da cultura pantaneira, agora num liquidificador gigante   com as consequências nefastas e os frutos do rastro de destruição da imposição, para no suco venenoso resultante  dessa confusão, coagir as populações resilientes a aceitar sua falácia do espantalho, para eternizar o conceito de que o que  faltou foi uma  exacerbação da estrutura de  comando e controle na coação e repressão do Estado, refém de um  comando ditatorial desses  iluminados parceiros estratégicos..

Nesta série de artigos trazidos a lume por publicações de outro bioma tentando, novamente, extrapolar os principais sofismas das narrativas vigentes sobre a Amazônia, apontando-as como solução para o Pantanal.

Ao culminar com esta peroração abaixo, como num sermão religioso, buscando expor as dogmáticas virtudes, que, agora vai, vai sim levar os pecadores pantaneiros ao paraíso desde que se ajoelhe, dê testemunho e se converta a essa nova religião, destaco link e trecho:

"-Além da fauna visível, a ciência perde a chance de descobrir curas e soluções em plantas medicinais que desaparecem antes mesmo de serem catalogadas. A degradação desses refúgios biológicos representa uma perda irreparável de material genético e potencial farmacêutico. O aquecimento local, potencializado pela perda da sombra e da umidade das florestas ciliares, agrava o efeito estufa e altera o microclima de toda a região centro-oeste. Preservar o Pantanal com o apoio de entidades como o Instituto Homem Pantaneiro não é apenas um ato de conservação romântica, mas uma estratégia de sobrevivência climática e segurança hídrica."

Como pantaneiro, prometo abjurar minha cultura e meus conceitos, se comprovar-se que estou equivocado através de uma perícia técnica ambiental isenta, justamente nas áreas monitoradas e sob o domínio dessa Rede de Proteção desse mesmo Instituto e seus congêneres.

Os parâmetros a serem auditados deverão apurar justamente a destruição, em poucos anos, por incêndios recorrentes que trouxeram a degradação das "florestas" ciliares, em todo o Tramo Norte, em ambas as margens do Rio Paraguai, de Corumbá até seus limites com Cáceres e Poconé. 

Além das "florestas" ciliares (Sic) deveremos auferir o "desmatamento" causado nas Morrarias do Bonfim, Chané, Dourados, Amolar, Penha e Acurizal que continham exuberante vegetação tornando-se morros literalmente "pelados" em consequência de recorrentes incêndios descontrolados dos últimos anos.

Começam já a aparecer cicatrizes de enxurradas e voçorocas de deslizamentos de terra, antes inexistentes em tais morros quando ainda não eram "reservas monitoradas".

Sofremos muito nesta quaresma que se eterniza no Pantanal, sofremos duplamente, a primeira quando nos confrontamos com a injustiça de todo o desconhecimento de que estávamos aqui antes e somos os construtores do Pantanal e para nós, era previsível os males que ocorreriam com a expulsão dos últimos resilientes pantaneiros, minúscula fração da população tradicional, mas que ainda resistiam.

Assim como nossos morros, nossas matas ciliares, nossas florestas estacionais e deciduais também o Pantanal está sendo pelado de sua população e pastorícia tradicional, em benefício dos mesmos que lucraram intermediando empréstimos para a destruição de nossos rios no Planalto e nossas caixa d'água nos cerrados, para alimentar sua transformação de tigres de papel em dragões econômicos.

Nosso objetivo jamais será expulsá-los (como continuam a tentar fazer conosco) dos enormes latifúndios ambientais adquiridos, queremos tal perícia e a auditoria ambiental para que parem de sangrar os cofres e fundos públicos e, pelo menos assumam responsabilidade sobre suas áreas de reservas, que pelaram das commodities ambientais, ou as distribuam para os que expulsaram e tem plenas condições de plantar, colher e criar animais no modelo da cultura tradicional própria. 

Mas do que nunca, o Pantanal expõe sem querer impor nada, mas rogando para que entendam que só a simbiose transcendental entre fauna, flora, gente e suas criações domésticas e selvagens, poderiam vencer o desafio lançado de salvar a beleza das terras e águas do Pantanal.

(*) Pantaneiro do Porto São Pedro, Amolar, Corumbá-MS