ARTIGO

Mata, morra, corra ou a Onça de Troia

23 JAN 2026 • Por ARMANDO ARRUDA LACERDA • 18h45

Pantaneiros receberam vídeo com uma onça defendendo uma carcaça de vaca com aparência de prenha contra urubus, mas chamada pelo desavisado locutor de bezerro, alguém logo pontuou:

"O narrador mostra que não conhece nem é do ramo, trata-se uma vaca e não bezerro, provavelmente mataram para atrair a onça que por sinal foi acostumada com o carro e os turistas filmando, por estes lados funciona do mesmo jeito."

Em seguida, um "especialista" manda seu pitaco em tom ameaçador:

"-Faz o mesmo com gente que chega perto."

Vacas prenhas, novilhas, bezerros ou pequenos animais domésticos prejuízo obrigatório ao criador, involuntário sustentáculo integrante da alimentação dessa cadeia produtiva que sustenta milionária teia de exploração das onças, concupiscente introdução cínica do culto ao bestialismo, tratado temporariamente   como atrativo único no Pantanal! 

Hipocrisia que virou cinismo, e agora coroa-se com arrogância e prepotência para expulsar a pequena criação da pastorícia e pequenos animais da pacata vida nas comunidades tradicionais pantaneiras...

Nem o fogo arrasando tudo nas beiras de rio, protegidas por tais amigos da onça das onças consegue levá-los a um mínimo diálogo ou expressar algum tipo de empatia por humanos.

Antigo jeito de dominar introduzindo um Mata, Morra ou Corra nas fazendas e casas de moradores por todo Pantanal, únicas possibilidades de reagir a essa moderna e estrategicamente programada por engenharia social Onça de Troia. 

Onças do Pantanal, na hipótese de acabar o gado e outras criações por sua mega, hiper, super explosão populacional irão terminar por tentar forragear nas comunidades periféricas urbanas.

Implanta-se no consciente coletivo de que toda morte é sacrificial e aquilo que a onça mata seria de   seu direito natural sobre atividades humanas invasoras, objetiva-se a total superioridade moral das onças, meta subjacente nessa política que tentam implantar a ferro e fogo nos últimos anos no Pantanal: "-Quem lucra mais, chora menos!"

Por nos considerar presos nesse labirinto onde qualquer das três opções destruiria os seculares frutos da cultura pantaneira, tornar-se-iam os únicos herdeiros das commodities ambientais que mapearam existir por todo o Pantanal.

Nossa atividade econômica introjetou no inconsciente coletivo que a vida das onças deve ser tão respeitada quanto as vidas humanas, e desse respeito mútuo surgiu a simbiose que permitiu ambas as espécies conviverem na cultura histórica do Pantanal.

Estes modernos exploradores das onças são os atuais caçadores extrativistas de peles e penas de animais, que só visam o lucro imediato ao expulsarem tão incômodos pantaneiros.

Parece óbvio que depois voltarão a controlar a superpopulação de tais bestas feras, reimplantando aqui a barbárie dos safáris, modelo africano, de caça remunerada em busca de troféus cinegéticos, carcaças taxidermizadas ou tapetes de peles.

Cuidado, pode ser que pantaneiros sejam como gatos domésticos que, dizem, quando encantonados sem saída, lutam e vencem até enormes onças pintadas...

(*) Pantaneiro respeitador da criação, das gentes, fauna e flora do Pantanal