Manoel e eu, poetas solitários
13 JAN 2026 • Por EDDSON C CONTAR (ALKONTAR) • 08h57Domingo, meio dia, cidade vazia, ninguém pelas ruas, nem mesmo os carros que costumam lotar a avenida apareceram...
Eu tive que sair pra buscar o almoço, e caminho como se o mundo tivesse acabado...nem um ser cruza meu caminho ... Penso que até os cães de rua buscaram abrigo e estarão sesteando pós migalhas que cataram nos lixos deixados.
De repente, chego à esquina da outra avenida e me deparo com o meu ídolo, agora de bronze, mas que vale ouro pra mim. O grande Manoel de Barros, todo refastelado num banco do canteiro central ... Taí!...Lá vou eu tentar um papo maluco, como fiz com Noel Rosa, um dia, em Vila Isabel.
Muitos pensam que estou “doidando”, mas tô não, violão!...
Pra mim, tudo tem alma, e na falta da carne e osso, a gente se entende no astral...
E Assim fiz, e até perguntei se ele não se sente abandonado nesse pedaço da cidade, quando falta um ou outro que venha sentar com ele pra ouvir uns versos pantaneiros que só ele sabia fazer com perfeição.
Mas quá! Tal como Noel, ele nem piscou ... Se ouviu meu chamado, nem sei... Mas sorria!
Eu ainda tentei agradar e mostrei no meu celular a poesia que fiz pra ele, naquele quinze de novembro triste, dia que ele partiu ... e fiz mais, li para ele a poesia:
"O INDIVISÍVEL MANOEL
Eddson C Contar Alkontar – (na tristeza de um treze de novembro 2024)
Nasceu lá, e veio poetar cá...
Parido mato-grossense,
veio pra banda sul,
E fez ninho no pantanal (que é um só)
E daqui partiu pra ficar...
Foi morar no tudo azul.
Ninguém jogava prosa melhor...
Era um gênio o danado!...
Inveja boa me dava
Quando ele “desinventava”
E eu guardava de cor e salteado...
Embora nascidos no mesmo dia,
Com vinte e três anos de diferença
Ele se deu poeta, eu rabiscador
Sem nenhuma parecença.
Agora é fruta colhida
Pelas mãos do criador,
Ganha espaço noutra vida,
Deixa aqui seu grande amor
Sua estrela preferida,
Stella, sua linda flor.
Vá, poeta exclusivo,
Único, lindo, sem igual!
Apoite lá no meu Parnaso,
Deixa Pasárgada esperar,
Pois sei que, ainda um dia,
Vou, outra vez, te encontrar."
...E o homem nem agradeceu! ...Só sorriu!
Eu já perdia a paciência, mas tentei ainda lembrar quando ele morava ali perto, na Rui Barbosa, abaixo da quinze, e éramos vizinhos ... Nada ...só sorria ...
Falei, gesticulei, quase gritei, e ele...SORRIA!
Foi aí que notei que, como com o Noel, devo ter chamado atenção de pessoas, pois pelo menos duas estavam vendo e gargalhando com minha loucura... Um senhor que fotografou tudo, e um morador de rua que falou e eu ouvi: "ô loco, esse homi tá mais fumado que ieu!!!"
Eu mereço!
Preciso parar com essa mania de tentar falar com pedras, argila e bronzes.
*Eddson C Contar Alkontar, jornalista, turismólogo, escritor