ARTIGO

O problema da utopia climática

6 NOV 2025 • Por O ESTADO DE S. PAULO • 09h13

As conferências do clima tornaram-se rituais mundiais de expiação, aonde os penitentes chegam de jato particular, celebram festivais de santimônia e pregam sacrifícios severos – para os outros. Os ambientalistas disputam a medalha da premonição mais apocalíptica (e irrealista), e os políticos, a da promessa mais redentora (e custosa), reduzindo o drama ambiental à chantagem moral. 

No limiar da COP-30, o empresário americano Bill Gates inscreveu em um memorando três verdades que soam heréticas à ortodoxia climática, mas são moral e empiricamente inatacáveis. 

Primeiro: “A mudança climática é um problema sério, mas não o fim da civilização”. Já avançamos mais do que os alarmistas admitem, e é com inovação, não com mortificação, que iremos além. 

Segundo: “A temperatura não é o melhor meio de medir nosso progresso sobre o clima”. É hora de pôr o bem-estar humano no centro das estratégias climáticas, que devem ser avaliadas menos por graus contidos do que por vidas erguidas. 

Terceiro: “Saúde e prosperidade são a melhor defesa contra a mudança climática”. Não se trava o bom combate ao aquecimento sugando dinheiro do combate à pobreza e doenças e despejando-o em tecnologias “verdes” caras e ineficazes. 

Os fariseus ambientais pregam que o crescimento é pecado, e a indústria, uma ameaça existencial. Mas os fatos são teimosos. Poluição? Só nos EUA, por exemplo, caiu 78% desde 1970. Desmatamento global? Diminui continuamente desde os anos 1980. Mortes por desastres naturais? Despencaram 96% em um século. Pobreza extrema? De 90% da população mundial para 9%. A humanidade vive mais, come melhor e educa mais crianças do que nunca. O planeta não está em colapso: está em conserto – que pode ser consumado pela força da ciência e da tecnologia. 

Mas o culto ambientalista exorciza o negacionismo climático no altar do negacionismo econômico. Exige energias limpas por decreto – ignorando que hoje são caras e intermitentes, que o vento não sopra sob encomenda e o Sol não trabalha à noite – e “carbono zero” a qualquer custo – cobrando dos países pobres sacrifícios que os ricos jamais praticaram para enriquecer. Para “salvar o planeta”, está pronto a abandonar meio mundo na vala comum da pobreza. 

A alternativa não é desistir do clima, mas trocar a retórica utópica pela ação realista. O ambientalismo responsável mede custos e benefícios, não intenções. Ele sabe que descarbonizar exige aprimorar novos combustíveis até que sejam tão baratos e confiáveis quanto os fósseis. Isso não se faz com passeatas e cúpulas, mas com investimento em pesquisa, inovação e infraestrutura: energia nuclear, hidrogênio verde, fertilizantes limpos, biocombustíveis, baterias de longa duração. É preciso mais engenharia e menos histeria.

Um ambientalismo maduro também entende que é preciso se adaptar a um mundo mais quente. Agricultura de precisão, saneamento, ar-condicionado, drenagem urbana e vacinas protegem mais pessoas do que décadas de discursos. Saúde e desenvolvimento não competem com o clima – são sua defesa mais eficaz. A meta não é “salvar o planeta” em abstrato, mas garantir que as pessoas vivam nele com dignidade e segurança. 

A COP em Belém oferece o exemplo e o desafio. Nenhum outro lugar expõe com tanta clareza o imperativo de equacionar preservação ambiental e desenvolvimento social. As populações amazônicas estão entre as mais pobres do Brasil, e não haverá floresta em pé sem gente erguida. O petróleo no fundo do mar, longe de ser maldição, pode financiar a inclusão social e a transição energética. Empregado com inteligência e responsabilidade, não é incompatível com a sustentabilidade. A miséria é. 

Os zelotas do clima fazem profissão de fé em uma meia verdade: a de que a humanidade é o problema. Mas, presos a essa ideia fixa, são cegos à verdade inteira que liberta: a humanidade também é a solução. Graças à indústria, à ciência e à criatividade, já vencemos boa parte da batalha que os profetas do Armagedom dão por perdida. O mundo ainda é ruim, mas está melhor que ontem, e pode melhorar muito mais amanhã – desde que troquemos a culpa pela esperança e o pânico pela razão.

(*) Editorial publicado no dia 3 de novembro de 2025