domingo, 05 de abril de 2020
ARTIGO

Ecologistas precisam evoluir sobre turismo natural

06 MAR 2020 - 12h26Por XICO GRAZIANO

Existe uma diferença entre os conceitos da “preservação” e da “conservação” ambiental. No primeiro, o território natural é considerado intocável; no segundo, permite-se o uso sustentável de áreas protegidas.

Lembrei-me desse beabá ao ver certos ecologistas criticarem a liberação da pesca esportiva em unidades de conservação do Brasil. Vem de longe essa discussão, originada nos EUA, há cerca de 70 anos. Pode ou não, existir atividade humana, produtiva, nos Parques Nacionais?

Para os puristas, a natureza é sagrada. Espaços do território devem ser guardados puros, como vieram da Criação. A ideia, gerada na Inglaterra, no começo dos anos de 1.800, tinha um toque de filosofia de Jean Jaques Rousseau: o homem primitivo é bom, mas a sociedade moderna lhe corrompe.

Permitir a vivência humana em áreas protegidas significaria inundá-las com a natural perversidade humana. Sendo assim, para preservar uma área ambiental, o certo seria eliminar qualquer contato com essa força degenerativa. Só que não.

A ideia do “desenvolvimento sustentável”, formulada pela ONU nos anos 1980, modificou, em todo o mundo, gradativamente, as políticas de defesa da biodiversidade. O preservacionismo foi cedendo lugar ao conservacionismo, aceitando nas políticas ambientais ações geradoras de renda e, ao mesmo tempo, cooperadoras da preservação.

Assim nasceu o turismo ecológico. Hotéis maravilhosos e empresas credenciadas passaram a oferecer lazer misturado com contemplação da natureza, trilhas deslumbrantes, observação de pássaros, passeios nas cachoeiras. Surgiu um lema: “quem conhece, defende o meio ambiente”.

A agenda da exploração sustentável de áreas naturais chegou à atividade da caça. Na França, no Canadá, no Quênia, na Patagônia argentina, em tantos lugares, territórios especialíssimos passaram a ser mantidos, protegidos, graças aos recursos gerados pela caça sustentável. Sistemas de gestão territorial, desenvolvidos pela caça de animais consagraram a vantagem da estratégia.

A pesca esportiva no Brasil vem se afirmando como modalidade de turismo da natureza há, talvez, uns 10 anos. Antes, vigorava a pesca predatória. Verdadeiros assassinos de peixes se enfiavam pelo Pantanal, ou por tantos lindos rios nacionais, e pelo litoral afora, matando tudo que encontravam pela frente. Felizmente, está virando passado.

Muitos ecologistas temem a expansão do turismo ecológico nas Unidades de Conservação. Acreditam que será um vetor de destruição, levando poluição e pressão contra a biodiversidade para dentro dos Parques. Preferem ver, como tradicionalmente se fazia, a área isolada da ação humana.

Mas eles precisam evoluir suas posições, abandonar esse tipo de atitude egoísta, elitista, que pensa apenas no “meu” ambiente. A população tem o direito de usufruir das riquezas naturais do Brasil. Claro que é necessário colocar regras e fixar responsabilidades para garantir o sucesso do uso sustentável.

Temos que vencer nossas idiossincrasias e nos livrar desse complexo de inferioridade que acha que aqui no Brasil não dá certo aquilo que funciona bem no mundo todo. O ecoturismo é o turismo do futuro no Brasil.

 

Xico Graziano, 67, é engenheiro agrônomo e doutor em Administração. Foi deputado federal pelo PSDB e integrou o governo de São Paulo. É professor de MBA da FGV e sócio-diretor da e-PoliticsGraziano. O articulista escreve para o Poder360 semanalmente, às quartas-feiras.

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