sábado, 28 de março de 2020

A influência da cultura na relação com o meio ambiente

20 JUL 2017 - 08h44Por LILIANA TINOCO BACKET

A cultura guia o comportamento dos povos e ajuda a diferenciar os grupos, funcionando como um marcador importante das sociedades. Valores culturais são tão arraigados que passam despercebidos pela maioria dos indivíduos; geralmente não se pensa no assunto até a primeira viagem internacional, quando o cidadão se depara com uma multidão incomum, que se veste, fala e se porta de outras maneiras.

O famoso iceberg da cultura, desenvolvido por Edward Hall em 1976, é uma analogia que explica a profundidade dos traços culturais, implícito em cada ato escolhido. O modelo mostra que apenas 20% desses traços são perceptíveis, acima da linha do mar no iceberg. Esses seriam mais facilmente identificáveis, como a comida, a língua ou o clima. Entretanto, 80% das evidências encontram-se submersas e constituem a parte mais complexa e genuína de um grupo social, como por exemplo a noção de modéstia, as formas de liderança e de comunicação. Não se consegue, à primeira vista, avaliar e entender essas diferenças; mas não se engane, elas cumprem um importante papel e irão influenciar como as pessoas tomarão determinadas atitudes e não outras.

Consequentemente, a preocupação e o cuidado de alguns grupos com a qualidade do ar que respiram ou com a participação efetiva em medidas diárias que contribuam para a preservação de uma espécie de animal não podem ser totalmente descartadas de um traço cultural. É preciso incluir, claro, decisão e vontade política, leis vigentes, situação econômica etc. Mas essas não estariam também conectadas com os traços culturais?

Estudo de 2013, dos economistas George Halkos e Nickolaos Tzeremes, publicado no Journal of Environmental Economics and Policy Studies, avaliou a influência na relação entre as principais dimensões culturais e a eficiência ecológica e detectou uma correlação interessante. Durante os últimos dez anos, os esforços para quantificar o desempenho ambiental de um país foram conduzidos através de Índices de Desempenho Ambiental (EPIs) – formalmente reconhecidos como “scorecards” desenvolvidos em resposta aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e usados ?? para classificar as políticas ambientais de um país em diferentes categorias.

Foram examinadas a relação entre as emissões de dois grandes gases de efeito estufa (dióxido de carbono e dióxido de enxofre) e quatro das categorias mais amplamente reconhecidas da cultura, utilizando o modelo de Dimensões Culturais de Hofstede: que divide as culturas entre as categorias masculinidade versus feminilidade, distância de poder, individualismo versus coletivismo e evitamento da incerteza. Geert Hofstede é holandês e especialista em estudos Interculturais.

Na análise, uma sociedade masculina é definida como aquela que valoriza o sucesso e o progresso material, enquanto a mais feminina prioriza a modéstia e o cuidado com os outros. A distância de poder representa pontos de vista sobre a desigualdade: a alta distância de poder traduz-se na crença de que os poderosos têm privilégios e podem herdar sua posição por meio de força; as sociedades com baixa distância de poder acreditam que a pujança poder deva ser distribuída igualitariamente. Os povos coletivistas valorizam os interesses dos grupos em relação aos interesses individuais e permitem que o Estado desempenhe um papel importante no sistema econômico, enquanto as sociedades individualistas esperam que seus membros cuidem de si mesmos. Por fim, evitar a incerteza significa o grau de tolerância da sociedade para situações desconhecidas. As sociedades de alta evasão lutam contra a incerteza com muitas leis e regras precisas e geralmente reprimem os protestos dos cidadãos.

Com exceção da masculinidade e feminilidade, cada fator teve um efeito estatisticamente significativo nas métricas de desempenho ambiental. A hipótese prioritária ao estudo era a de que as sociedades femininas exibiriam alta pontuação de ecoeficiência devido a uma forte identidade e atenção da comunidade não se comprovou. As categorias distância de poder e o individualismo foram que a mais exerceram influência sobre o resultado. Embora os autores tivessem levantado a hipótese de que a mentalidade de pensamento coletivo dos países coletivistas encorajaria a competência ecológica, verificou-se que os países individualistas prevalecem, talvez por imbuírem em seus cidadãos um maior senso de dever e autoempoderamento. Nessas sociedades, há uma maior tendência ao comportamento consciente em relação ao meio ambiente, enquanto a maioria dos países de baixa eco-eficiência é caracterizada por noções coletivistas e um papel dominante do governo.

Não se sabe se o Brasil foi avaliado na pesquisa, mas ao dirigir a análise para o país e comparar com modelo de cultura de Hofstede, pode-se dizer que integramos a lista das nações com grande distância de poderes, alta tolerância à incerteza e características coletivistas. Algumas questões desse assunto, entretanto, precisam ser comentadas: infelizmente não há muita literatura sobre o tópico; e é tendencioso atribuir a nações determinados estereótipos por integrarem uma ou outra categoria cultural. No entanto, conectando os pontos do estudo com observações diárias entre as culturas brasileira e suíça, comparadas com a literatura do antropólogo Roberto DaMatta, leva-se a crer que o conteúdo se interconecta.

Saindo da teoria para o lado prático, é importante mencionar que o aspecto hierárquico brasileiro do “sabe com está falando” leva a uma interpretação diferenciada da lei: a de que alguns têm mais direitos que outros. Afinal, quem se acha com poder de desrespeitar uma regra porque se sentir em posição superior aos demais está praticando a hierarquia de poderes, quebrando um protocolo que deveria ser seguido. Essa premissa não nos remete a alguns personagens brasileiros, que acreditam poder lançar mão de determinados privilégios por serem quem são?

As categorias culturais avaliadas por Halkos e Tzeremes têm suporte nos estudos do antropólogo brasileiro Roberto DaMatta que, consequentemente, respalda a Pesquisa Social Brasileira, relatada no livro A Cabeça do Brasileiro, de Alberto Carlos Almeida. O autor mostrou que DaMatta estava certo: “o Brasil é hierárquico, familista, patrimonialista e se encaixa em vários outros adjetivos que significam arcaísmo, atraso. De acordo com Almeida, a chave do abismo que coloca o Brasil na direção do atraso é a baixa escolaridade. E como a maior parte da população sofre desse mal, os erros se repetem. Como o próprio livro cita o estudo empírico de Ronald Inglehart e Christian Welzel, mais riqueza e educação levam as pessoas a rejeitar a autoridade superior, relações sociais verticais em benefício de relações de poder mais horizontais e a buscar formas de “autoexpressão,

Portanto, tomo emprestado o pensamento de Almeida, ao relatar em seu livro a análise da sociedade brasileira e a comparação com a americana por DaMatta. No Brasil, onde a sociedade é hierárquica, no qual a posição e a origem social são fundamentais para definir o que se pode e o que não se pode fazer; para saber se a pessoa está acima da lei ou se terá de cumpri-la. É assim que a herança escravista se manifesta no Brasil: os brasileiros lidam mal com a igualdade. E brilhantemente o autor exemplifica o país igualitário com a frase “Quem você pensa que é? Quem você acha que é para poder estacionar nesse lugar”. Ideia que irrita muitos estrangeiros aqui na Suíça, quando querem cometer uma pequena infração e são chamados atenção pelo suíço comum, que passa casualmente no momento e presencia a transgressão.

Exatamente o contrário dos povos individualistas, que acreditam menos no Estado, mas mais no seu poder de atuação para modificação da sociedade. Voltando ao estudo de Halkos e Tzemeres, que verificou a prevalência da competência ecológica em nações individualistas, é possível conectar novamente com os achados de DaMatta e de Almeida. Se em sociedades individualistas, a escola é valorizada, provavelmente há enfraquecimento da religião, tornando as pessoas mais céticas, menos tolerantes com o abuso, cientes do seu papel e mais aptas a lutarem por seus ideias e destinos de uma forma sustentável.

A minha proposta, ao escrever esse texto, não é afirmar uma verdade, mas a de estimular a reflexão sobre como alguns traços culturais podem estimular o retrocesso brasileiro. Pequenos atos e crenças, repetidos há gerações, têm o poder de levar uma nação inteira a repetir erros que não cabem mais no século XXI, num mundo em que os recursos naturais já apresentam falência. E se cultura é fluida e se modifica o tempo todo, vale a pena entender para tentar mudar o que não está bom.

Radicada há 12 anos na Suiça, Liliana Tinoco Bäckert é jornalista e treinadora intercultural, com mestrado em Comunicação pela Universidade de Lugano. 

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