terça, 07 de dezembro de 2021

Teses e antíteses ou todo fogo no Pantanal é agropastoril!

20 OUT 2021 - 20h44Por ARMANDO ARRUDA LACERDA

Será coincidência que as estratégias de sobrevivência, adaptação desenvolvida por séculos pela cultura tradicional tenha concomitância com um Pantanal sustentável e protegido de incêndios/assoreamento, empírico, eficaz, funcional e funcionando nas secas e enchentes?

Agora, com a chegada de protetores externos nos últimos anos seja mera coincidência a concomitância de catástrofes, que se tornaram a marca mais divulgada deste novo Pantanal protegido?  

Vemos que tal concomitância se torna óbvia, nas respostas obtidas, talvez com embasamento na melhor ciência jurídica e acadêmica, ao responder do porquê da catástrofe, sempre sai algo igual ou parecido com isto:

"Do ponto de vista legal o maior desafio é conseguir comprovar se o incêndio foi intencional ou culposo: quem provocou e como foi provocado".

Ou:

"No caso do desmatamento não é possível desmatar de forma culposa - crime sem intenção -, mas com os incêndios isso é diferente".

"É provável que os pontos de ignição dos incêndios tenham correlação com as atividades agropastoris desenvolvidas no Pantanal".

Com relação à coincidência destas declarações vocalizando a crença absoluta nestas teses, urge que nossos curadores oficiais do meio ambiente deveriam submete-las previamente uma maior reflexão e ponderação à luz da cultura tradicional e dos ensinamentos empíricos acumulados no Pantanal, isso certamente impediria que tais "teses"  virassem dogmas.

O ponto fulcral é que o incêndio só envolve culpabilidade dependendo da qualificação de quem o provocou, e o desmatamento, mesmo legalmente autorizado, sempre envolve a comprovação da culpa, e as ignições e o fogo, o pré-incêndio, sempre está associado às "atividades" agropastoris.

Ocorre, que as atividades agropastoris não são as únicas atividades humanas desenvolvidas no Pantanal, e no triângulo do fogo a única forma de prevenção absoluta é a não acumulação de combustível.

Como estas são atividades regulares e objeto de inúmeras licenças, incluindo aí até pedir licença para tirar madeira para lenha do fogão, eventualmente cultivar pastagens melhores ou limpar campos já muito utilizados, mesmo o uso do imprescindível fogo preventivo, tudo é rigidamente controlado e informado, de acordo com a legislação vigente.

Todas as demais atividades  econômicas, apesar de intensamente prestigiadas pelos sócios ambientalistas e seus protetores e incentivadores, são consideradas inexistentes para essas teses,  principalmente o extrativismo de  madeiras (motoserras modernas criaram a devastadora serraria individual); coleta de iscas, pesca com petrechos proibidos e a pesca dita turística, todas praticadas em áreas particulares; coleta de mel silvestre com uso  do fogo; coleta de ovos silvestres de jacaré e a caça para  consumo da sua  carne , das mais finas e caras  iguarias  exóticas do Pantanal,  tornada moda e exigida para degustação pela imensa maioria de "turistas ecológicos".

A extrema mobilidade fora dos canais dos rios pelos barcos rabeta possibilitam a prática de abigeato, tráfico de drogas, contrabando e descaminho por rotas inacessíveis à fiscalização...

Meticulosamente, ao longo do tempo criou-se uma inversão depois de muita repetição foi estabelecida a falácia de que o fogo não atinge pastagens abandonadas por inviabilidade econômica ou  pastagens preservadas em bem remunerados  projetos de preservação ambiental,  os incêndios só atingem áreas de  pastagens que são utilizadas em atividades agropastoris...

Embora, nos trezentos anos da interação das atividades agropastoris, com a criação de gado por todo o Pantanal, inexista registro de extinção de espécies vegetais ou animais, ou mesmo assoreamento que possam ser atribuíveis a essa sustentável atividade, mesmo manejando empiricamente o fogo, eis que de vítima vira vilão.

Disruptiva e perturbadora é vermos que toda esta atividade econômica que nos legou um Pantanal sustentável, serem sistemática e repetidamente considerados vilões, coincidentemente após o aumento da presença de poderosos agentes econômicos, que escondem na filantropia e promessas de preservação toda sua expertise de especulação e dominação financeira. 

Ocultos pela fumaça da farta propaganda e da impunidade, assistimos os maiores responsáveis pela impiedosa e recente destruição do Pantanal serem considerados vítimas, convalidando a tese dos pantaneiros de que isso só seria possível com a completa omissão e a tolerância dos que tem o dever de impedi-los.

Mesmo considerando fabulosas  boas intenções e toda a  filantropia divulgada,  os órgãos fiscalizadores do Pantanal não deveriam abrir mão  das medidas mitigadoras do impacto ambiental, causado pelo acúmulo de massa vegetal, mesmo que sejam Parques Nacionais ou Estaduais, APAs, RPPNs ou quaisquer outras novas formas de preservação  trazidas para a região, todas devendo ser objeto  de  EIA-RIMA e compromissos nos Planos de Manejo.

O Pantanal não impõe, só expõe os fatos que, repetidamente, passaram a ocorrer  nas matas ciliares do Rio Paraguai,  barrancas desnudas após  calcinadas por incêndios embora tão juntas da água, vulnerabilidade inédita que potencializa  tarefa de destruição agora sendo completada pela intensa correria de barcos pequenos, levando a catástrofe do assoreamento até  seu leito navegável.

(*) Pantaneiro tradicional

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