sexta, 24 de maio de 2024
ARTIGO

Pantaneiros informam: respeitar não é idolatrar animais

16 MAI 2024 - 09h38Por ARMANDO ARRUDA LACERDA

"Onde quer que haja adoração de animais, ali haverá sacrifícios humanos". 

Este pensamento de ensaísta católico Chesterton, certamente evocava um fundamento judaico cristão onde foi imposto a Abraão o sacrifício de seu filho Isaque, mas que foi substituído por um sacrifício universal valendo para redimir todo ser humano dali por diante, o de Jesus Cristo, único Filho de Deus nascido humano.

Algumas leis não escritas da cultura pantaneira partem de um profundo sentimento pelos animais, não permitindo abater vacas de leite, bois de carro e cavalos mansos de arreio, e o enterro de cachorros, gatos, aves ou até mesmo outros animais domesticados, que adquirem o respeito e a consideração de úteis companheiros de jornada.

Existe outrossim um profundo sentimento de respeito pelos animais criados e necessários serem abatidos para consumo humano, expressado na salmoura que é dada a beber à matula, e no consumo e aproveitamento sem desperdiçar nenhuma parte, principalmente sangue, miúdos e ossos.

Minha mãe tinha esse compromisso com animais abatidos, e mesmo o capado selvagem era avisado aos caçadores para trazerem as cabeças e miúdos que por comodismo seriam desprezados, não deveria se preferir somente a gordura e a carne necessárias no momento.

Não sei se gosto ou não de miúdos ou ossos, mas aprendi que só deveria se tocar na saborosa carne depois de todas essas partes serem meticulosamente consumidas, a feijoada mostra que miúdos e pedaços antes descartados dos suínos, podem, por costume adquirido de culturas ancestrais, virar sua parte mais saborosa...

Mesmo o consumo sistemático de uma só parte de aves, como filé de peito por exemplo, possibilita gerar a longo prazo, um profundo desequilíbrio no organismo que seleciona esse consumo, pois corresponde, na ética pantaneira, a desprezar e jogar no lixo a maior parte da vida do animal abatido.

Havia também respeito por animais que, ao sentirem que seriam abatidos, praticavam atos inusitados para fugir dessa sorte, como desenlear-se das sogas e maneadores, quebrando porteiras para fugir de currais, ou meios de transporte, acredita-se piamente que foram nisso ajudados pelo Senhor, que os perdoou como ao filho de do Patriarca Abraão, devendo, portanto, serem poupados do sacrifício programado.

Tudo isto diz respeito à dois acontecimentos atuais, o cavalo ou égua que subiu, e permaneceu no telhado na enchente e os 3 bois que conseguiram o feito de fugir da inexpugnável segurança máxima do frigorífico de Várzea Grande MT, não parece crível que foram ajudados e deveriam, a moda pantaneira, serem poupados do destino programado?

 O Pantanal expõe mais uma vez, que os neófitos na cultura pantaneira deveriam absorver estas leis não escritas de equilíbrio e ética, que busca introduzir respeito aos seres que são necessários morrer, sejam plantas ou animais, para que o sacrifício de sua vida, deem vida aos humanos.
 

(*) Pantaneiro do Porto São Pedro, Amolar, Corumbá (MS)

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