segunda, 25 de outubro de 2021

O meu último poconeano

09 OUT 2021 - 15h29Por MANOEL MARTINS DE ALMEIDA

Nascido em Poconé, Osvaldo Pereira de Sousa era o seu nome de batismo, Vadô para os seus e para todo o Pantanal! Vai daí que tanto ele era nosso, quanto nós éramos dele.

Ele próprio fazia parte da nossa grande família. Sua mãe, mulher destemida nos tempos da ainda submissão feminina, em defesa de sua honra, matou um "famaná" de seu tempo, durante uma farinhada na fazenda do meu avô, em Poconé. O sujeito, acostumado a desmanchar bailes e ferir os mais fracos naquelas redondezas, quis dela abusar e levou um tiro de carabina 44, à queima roupa, passando desta para melhor.

Este destemor diante do perigo foi uma das marcas de sua personalidade. Moleque ainda, em Corumbá, não dispensava uma boa briga, segundo seu próprio relato. Bateu e apanhou por causa deste temperamento enquanto teve forças em seus braços e suas longas pernas de capoeirista. Sua rasteira era indefensável.

Foi, na sua adolescência e parte da juventude, pau pra toda obra sob o comando do italiano Silvio Bianchi, meu saudoso tio, um grande empreendedor que trouxe para Cuiabá e Corumbá a maravilha do cinema e de requintados ambientes de lazer muito apreciados por seus frequentadores.

De garçom e responsável nas ausências do proprietário a entregador de refeições a operários na construção do trecho da ferrovia Brasil- Bolívia, onde o sr Bianchi era responsável pelo rancho dos trabalhadores, Vadô foi sempre figura indispensável.

Entretanto, apesar dessa sua enorme disposição para os serviços pesados, que o levaria a ser um dos melhores cerqueiros que este Pantanal já conheceu; sabia ser gentil e respeitador, tendo sido, conforme informação do primo Marco Aurélio, um dos filhos de Bianchi, o pajem (babá) da sua irmã Arlete, pessoa que futuramente homenagearia dando o seu nome a uma de suas filhas.

Mas, o destino de Vadô era o brejo pantaneiro, onde deixou seu nome como homem de opinião e de grande lealdade aos companheiros e à família, que o acolheu para o resto de sua longa e rica jornada pela vida.

Conheci vários Vadôs, do peão tresloucado, que montava "em pelo" os cavalos mais aporreados da fazenda São Camilo, ao Vadô pensador e grande analista do comportamento humano. Personagem ele próprio de uma época em que o Pantanal era o paraíso na terra, Vadô se tornou figura do nosso folclore, tendo sido um dos personagens objeto de estudo sociológico da Embrapa Pantanal. Suas expressões ficaram inscritas no vocabulário campeiro, seu vozeirão inconfundível se perpetuará ecoando pelos acampamentos, pelos galpões, pelos caponais e pelas rodas do truco espanhol que jogava só para poder dizer as suas trovas e praticar as "piancas" desse passatempo, que até hoje se vê entre a peonada.

Osvaldo Pereira de Souza, o Vadô

Bruto no serviço, queria que todos seguissem seu ritmo; daí as desavenças, muitas das vezes regadas a "Katira". Se o abandonava, terminava sozinho o serviço. A bebida, segundo admitia, atrapalhou bastante sua caminhada, mas, apesar de muitas vezes embrutecido pelo álcool, jamais deixou de ouvir ao meu pai ou a mim, quando chamado à razão.

Ainda bem jovem "juntou os trapos" com uma tal Maria, mais conhecida como Maria de Vadô. Eu era garoto nessa época, mas posso me lembrar das escaramuças entre ambos. Certa vez ele me apresentou um senhor como seu filho, talvez fosse fruto dessa união. Depois, teve duas esposas, e com elas deixou uma numerosa prole.

Éramos compadres, mas a nossa amizade não se prendia apenas a esse fato, tínhamos uma história de vida bastante compartilhada pela razão de vivermos nessa grande família “papa banana” de origens cuiabana, livramentana e poconeana, sendo ele o último sobrevivente desse grupo familiar poconeano, que migrou para Corumbá entre os anos trinta e quarenta do século passado.

Ultimamente, tínhamos longas e prazerosas conversas, ocasiões em que pude perceber a sua inteligência e o grau de compreensão que adquirira do comportamento humano. Tenho que reconhecer a surpresa que isso me causava. Fiquei seu fã e lamento que a correria da vida me tenha privado de maior convivência. Frequentava meu escritório e, muitas vezes, ia a minha casa, sempre levando algum presente, uma fruta ou um doce caseiro de sua produção. Aliás, nesse mister era campeão, pois aprendeu com os melhores da tradição de "rio acima"! Cozinheiro de mão cheia, dava prazer compartilhar as refeições em seus acampamentos. A melhor rapadura e a mais saborosa farinha de mandioca eram obrigações de todos os anos. A sua horta dava inveja aos nossos vizinhos.

Vadô exerceu com maestria e orgulho todas as modalidades de serviços de uma fazenda. Foi campeiro, ginete, domador de bois de carro, canoeiro, roceiro, praieiro, cerqueiro, cozinheiro e peão de estrada. Fazendo uma analogia com o futebol, podemos dizer que jogava em todas as posições.

O carinho que sempre demonstrou para com minha família e a franqueza dessa amizade eram comoventes. Nutria um especial afeto pela minha irmã, Maria Eulina. Grande companheiro do meu irmão Fernando, seu médico. "Arranhava" bem um violão e era bonito vê-los tocando e cantando as velhas modas campeiras. Do meu saudoso irmão Camilo foi companheiro e conselheiro na fundação da Fazenda Auxiliadora.

Dizia ter mais que cem anos de vida. Pelas minhas investigações arriscaria noventa e cinco ou pouco mais. Sabia e compreendeu ter chegado ao fim da longa estrada. Encarou a sua morte com lucidez e dignidade. Para os meus, deixa uma grande saudade e o exemplo da verdadeira amizade; para o Pantanal e pantaneiros, sua família e para o mundo, grande lição sobre honestidade e amor ao trabalho.

*Manoel Martins de Almeida, pantaneiro de Corumbá (MS)

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