quarta, 01 de fevereiro de 2023

Crise no Pantanal antigo

13 JAN 2023 - 15h39Por ARMANDO ARRUDA LACERDA

Chegou até nós um repetido causo do velho Pantanal, que contava a história de um morador que chegou à cidade para a sua visita anual.

Trouxe imenso farnel, não só para seu consumo, como para vender o excedente dada a excelente qualidade.

Arrobas de carne seca, mantas de toicinho, latas de banha, linguiças, farinhas, doces de frutas secas e compotas, rapaduras de massa e pura, queijos de vários tipos, enfim os batelões chegaram cheios.

Mas o clima na cidade não era bom. O Telégrafo trabalhava incessantemente, e a cada telegrama levado para uma das lojas do porto, um grupo acompanhava o carteiro.

Havia ocorrido o grande “crack” da Bolsa de Nova York, e a crise financeira já estabelecida na Europa, agravara-se sobremaneira.

A preocupação era geral. Não havia descanso, pois o telégrafo não parava. Quebradeiras. falências, suicídios. saques. Prisões, depredações. Ditaduras ferozes destituindo governos, reis e governantes.

Nosso personagem, cujo nome não vem ao caso, embora cansado da viagem, percorreu o Porto-Geral conversando com os comerciantes e, depois, subiu em busca de aguardada prosa com conterrâneos e parentes.

Visitou alguns durante a tarde, e após uma noite de descanso percorreu o resto dos conhecidos.

Ao final da tarde, retornou à casa do compadre e primo de tão especial consideração, o qual estava "assistindo" como hóspede da casa, e acompanhando a pinguinha informou que no outro dia retornaria para sua fazenda.

O compadre assustou-se. Houvera algum mal-entendido com a hospedagem? Algum maldizer de fofoqueiro? Desesperava-se, procurando saber o motivo da partida tão em cima da chegada...

Pigarreando ele acalmou o amigo:

 "Compadre, olhe aqui, desde que cheguei todo mundo só fala nesse ocorrido num lugar e com um povo que nunca ouvi falar, e que eles lá nunca ouviram falar de mim, enjoei desse assunto, além de que mostrar fraqueza só atiça o coisa ruim ...”

“...Na verdade parece que estão provocando pro povo ficá nessa correição de formigueiro, de perto na surpresa  até que a gente pode  correr de onça , mas do urro de longe, no máximo devemos passar lima na zagaia...”

“...Já troquei minhas coisas pelo que estava me faltando lá na fazenda, e amanhã cedo saio com os batelões...”

“...Olha, compadre, todo mundo aqui na cidade enlouqueceu, só falam dessa crise e dessa disgraceira que vai acontecê e acabar com o mundo inteiro...

Fez outra pausa, e continuou:

"É tamanha alugação das mentes, que até Dandão Buxo Gordo e Pidu Peixero, em vez de oferecê os buxo e os pacu, vieram me avisá dessa crise que está arribando, anunciada pelo piripipi do telégrafo...”

Tomou mais um gole e sentenciou:

"Zarpo na fresca da madrugada, na fazenda tenho me esperando um quarteirão de mandioca derrubando saia, dois cachorro que não pula batida de porco, um paiol cheio de milho, um quintal onde galinha é cisco, pode vim essa crise que todos falam, me desculpe, dá para esperar muito tempo sem depender de nada docês daqui da cidade...”

“...Daqui um ano eu vorto, quem sabe que se o mundo não se acabou, tudo não se ajeitou?

(*) Pantaneiro do Porto São Pedro, Amolar, Corumbá (MS)
 

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