terça, 20 de abril de 2021

A importância da Mata Atlântica para abelhas sem ferrão

09 MAR 2021 - 09h21Por MARCELA DE MATOS BARBOSA

Grandes extensões de áreas contínuas de florestas brasileiras têm sido convertidas, sob taxas alarmantes, em pequenos fragmentos de habitats incorporados a ambientes alterados pelos humanos, como áreas urbanas, de cultivos agrícolas e de pastagens. Tais alterações afetam serviços ecossistêmicos vitais, como a ciclagem de nutrientes, a qualidade dos corpos d’água, a formação de solos, a decomposição de matéria orgânica, o controle biológico de pragas e a polinização.

Diante deste contexto, os diferentes ecossistemas urgem por medidas de ações diferenciadas tanto de conservação, como de restauração da biodiversidade remanescente e dos seus serviços ecossistêmicos. Em programas de restauração ambiental e de recuperação de ecossistemas fragmentados, destacam-se as abelhas sem ferrão, as quais possuem papel importante como agente polinizador de ampla variedade de espécies de plantas. Consequentemente, a destruição dos habitats pode resultar na perda da diversidade nas comunidades dessas abelhas nativas e na ruptura das relações de interação entre elas e as plantas, impactando a manutenção e conservação de comunidades de plantas em sistemas naturais tropicais.

Esse grupo megadiverso de abelhas sociais está intimamente associado a habitats florestados, pois utilizam os recursos florais como fontes de alimento e as cavidades arbóreas para o alojamento de seus ninhos, agindo como organismos indicadores de mudanças na estrutura dos ambientes onde são encontradas. Desta forma, os estudos que compuseram a Tese de Doutorado de Marcela Barbosa tiveram como grandes objetivos: 1) avaliar como a cobertura florestal e os diferentes usos de solo (por exemplo, agricultura, silvicultura, áreas urbanas, pastagem, solo exposto) influenciam a riqueza e diversidade de abelhas sem ferrão que nidificam em ocos de árvores; 2) entender de que forma os fragmentos de floresta atuam na diversidade genética e fluxo de genes de Tetragonisca angustula, a jataí.

Entre 2015 e 2017, as buscas por ninhos de abelhas sem ferrão em árvores e a instalação de ninhos-armadilha foram conduzidas no Corredor Ecológico Cantareira-Mantiqueira, pertencente à porção sudeste da Mata Atlântica. Esse é um bioma ameaçado pela contínua fragmentação e perda de áreas, com a maioria dos remanescentes menores que 50 hectares. Em dez áreas, foram amostrados 143 ninhos pertencentes a 18 espécies. Os resultados das análises estatísticas mostraram que a diversidade de espécies de abelhas sem ferrão apresentou uma relação positiva com a cobertura florestal e com a heterogeneidade de uso de solo na escala mais ampla da paisagem (5km). Isso significa que essas abelhas “responderam” aos efeitos muito mais amplos do ambiente em que se encontram (5km), do que apenas ao contexto local onde estão localizados seus ninhos e suas fontes de alimento. Também, áreas com mais de 40% de florestas de Mata Atlântica favorecem a diversidade de espécies de abelhas sem ferrão.

Quanto ao segundo objetivo do estudo, os dados genéticos mostraram que a jataí é muito sensível às alterações estruturais no ambiente, especialmente, à quantidade de floresta que afetou a diversidade genética de populações de Jataí. Já áreas urbanas, embora não tenham sido significativas, mostraram-se como classes com maior resistência para dispersão das abelhas. Já as florestas, embora também não tenham sido significativas, facilitaram a dispersão para o fluxo gênico das abelhas e, ressaltando a importância da manutenção e conectividade dos remanescentes florestais existentes. (parágrafo atualizado pela autora em 12 de maio de 2020) 

Este estudo incorporou a abordagem de genética e ecologia de paisagem para obter informações reais de como as alterações ambientais afetam as comunidades de abelhas sem ferrão. Dessa forma, os dados obtidos proveram informações sobre a biologia e ecologia desses polinizadores, relevantes em planos de manejo, conservação e restauração a fim de mitigar a redução dos serviços de polinização em ambientes tropicais.

Doutora em Entomologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP)

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