quarta, 12 de dezembro de 2018
MEMÓRIA

Museólogo tem cinzas jogadas no Rio Paraguai

17 NOV 2018 - 13h08Por SILVIO ANDRADE

O paulista Nivaldo Vitorino, pesquisador, museólogo, urbanista, arquiteto e ambientalista morreu no dia 24 de agosto, em Campo Grande, quando idealizava um dos seus trabalhos mais apaixonantes: a concepção do Centro Histórico-Geográfico da cidade de Costa Rica, cidade situada ao Norte de Mato Grosso do Sul. Estado com o qual se identificou desde o momento em que chegou a Corumbá, em 2004, para criar o Museu de História do Pantanal (Muhpan).

No leito do Hospital da Santa Casa, aguardando cirurgia após um aneurisma com rompimento da aorta, Niva, como era conhecido, pediu subitamente a colega arquiteta Joelma Arguelho, também envolvida no projeto de Costa Rica, que desejava ser cremado se morresse. “Fala para mina irmã”, disse, sereno, em um momento crítico. Logo depois, sofreu uma parada cardíaca e morreu, aos 61 anos, na mesma semana em que o Museu Nacional do Rio de Janeiro foi destruído.

O corpo do conceituado profissional foi cremado em São Paulo e naquele momento de dor e tristeza surgiu a Ideia de jogar suas cinzas no Rio Paraguai, em um comentário da sua grande amiga Margareth Escobar, ex-superintendente do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional) em Campo Grande. A família logo concordou. Nivaldo explorou o majestoso rio em suas andanças e pesquisas por vestígios da presença do homem no Pantanal.

Nivaldo gostava de navegar pelo Rio Paraguai para contemplar as belezas do Pantanal. Foto Divulgação

Última homenagem

Nesta sexta-feira, com a presença da irmã, Nilva, parentes e amigos, as cinzas de Nivaldo foram jogadas nas águas caudalosas do Rio Paraguai, em frente ao Porto Geral, onde funciona o Muhpan, instalado no centenário prédio Wanderley & Baís. Foram momentos de grande emoção. O barco da Ong Instituto do Homem Pantaneiro (IHP), com a qual o museólogo compartilhou conhecimentos e sonhos, levou silenciosamente a urna até o centro do rio.

“Sinto que ele está aqui e muito feliz, sinto isso”, fala Nilva, 60, um dos três irmãos de Nivaldo, ao lado do coronel reformado Ângelo Rabelo, 58, consultor ambientalista, diretor do IHP e responsável pela vinda de Nivaldo a Corumbá para criar o Muhpan, museu administrado pela Fundação Barbosa Rodrigues. No barco, a prima Áurea e sua filha Andréia e a arquiteta Ana Paula Badarin, que conviveu com Nivaldo na montagem cenográfica do Muhpan.

O barco se aproxima do Farol da Marinha, no meio do rio, de onde se avista o Casario do Porto. A natureza molda em dourado as águas e o céu com o pôr-do-sol mais incrível. Rabelo se despede do amigo na última viagem juntos: “Nada mais justo do que colocar o Nivaldo em meio a esse lugar privilegiado. Ele contemplou e entendeu o Pantanal como poucos, talvez, antes dele, só o Manoel de Barros percebeu o que significava o Pantanal”.

Rabelo fala das virtudes de um gênio transformador e puro, ao lado de Nilva. Foto: Sílvio Andrade

Legado de esperança

Nilva também diz algumas palavras, enaltecendo o grande homem e artista que foi o irmão. “Sinto muito orgulho dele e fizemos essa jornada até Corumbá para prestar-lhe a última homenagem, em um lugar que ele se apaixonou e conviveu por tanto tempo”, comentou, sob aplausos. Em seguida, os presentes rezam um Pai Nosso e, lentamente, Nilva espalha as cinzas de Nivaldo pelas águas do Rio Paraguai, não tirando os olhos do prédio onde fica o Muhpan.

A sensibilidade a o poder da transformação poética e grandes projetos do renomado e introspectivo arquiteto é um legado de esperança que fica para as futuras gerações, cita sua amiga Luciana Sendyk, sanitarista de formação, ecossocialista por opção e vegana por ideologia, feminista e engajada, em um artigo publicado nas redes sociais logo após sua partida.

“O Nivaldo deixa um legado de amor para a irmã, família e amigos; de generosidade para quem trabalhou com ele. Para mim, pessoalmente, ficou o entender que a vida é rica e cheia de possibilidades, mas também frágil, fugidia. O instante do sonho passa em um piscar de olhos?—?sonhar é lindo, mas o motor da vida é a ação.”, escreveu.

Nivaldo reeencontrou forças para continuar sua missão na convivência com os índios amazônicos. Foto Divulgação

Muhpan, a semente

Sua passagem por Mato Grosso do Sul foi uma grande imersão cultural e ambiental, se tornando um garimpeiro de fragmentos, histórias e outras riquezas que estavam se perdendo num Estado que ainda busca sua identidade. Para Ângelo Rabelo, Nivaldo conseguiu traduzir cenograficamente e conceitualmente o homem pantaneiro em todos os momentos de ocupação do bioma, em cenários muito perceptíveis para quem visita o Muhpan.

Em 2009, ele foi o ganhador do prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, instituído pelo Iphan, pelo trabalho “Em Busca do Acervo Perdido”, que permitiu a construção do museu. Nivaldo criou coisas incríveis para descrever a presença do homem no Pantanal, como o túnel de imersão na paisagem pantaneira, com paredes revestidas de espelhos, onde são projetados vídeos refletindo o amanhecer, chuvas, pios, cantos de aves, na entrada do museu.

Foi muito além: sugeriu que índios bororo participassem da montagem do cenário e aplicassem a pintura corporal nas esculturas que compõem a cena indígena reproduzida no museu. Nivaldo realizou outras grandes obras, como o Museu do Perfume, em Curitiba, e o inacabado Museu Interativo da Biodiversidade, do Aquário do Pantanal. Mas nenhum outro trabalhou o deixou tão realizado como se aprofundar nas entranhas do Pantanal.

Museólogo contempla o Cerrado, de onde tiraria inspirações para seu projeto em Costa Rica. Foto Divulgação

Projeto inacabado

A sua dedicação de corpo e alma nos projetos lhe custava, muitas vezes, tristezas e frustrações. Ficou chateado, por exemplo, por não ter sido comunicado ou convidado a participar da introdução de um novo componente no Muhpan que trava do homem negro. Da mesma forma, ficou chocado com a alteração do seu projeto para o Centro de Ciências Naturais de São José dos Campos (SP), a ponto de pensar em se mudar do Brasil.

Nivaldo reencontrou forças para continuar sua missão em uma incursão pela Amazônica, onde concebeu e doou o projeto do centro de apoio a Ong Doutores sem Fronteira e convivência com a natureza, crianças da aldeia indígena Paiter Suruí e saiu transformado, lembra Luciana Sendyk. “Começo a re-gostar do Brasil”, teria dito. De volta a Mato Grosso do Sul, passou a dedicar-se na montagem do Centro Histórico-Geográfico da cidade de Costa Rica.

“Aqui os professores da rede publica de ensino recebem 13, 14 e 15 salário e esta valorização implicou no desempenho dos estudantes que estão entre os melhores do ranking nacional. O futuro museu que projetarei será uma extensão das salas de aula, além de proporcionar aos turistas uma leitura da paisagem local. Estou muito animado e feliz da vida para colaborar com eles”, escreveu em sua página no Facebook, duas semanas antes de morrer.

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