sexta, 19 de julho de 2019

Com o Rio Paraguai (e a natureza) não se brinca

20 JUL 2017 - 11h34Por Sílvio Andrade

“Água de rio não tem galho pra se segurar...” A letra da música que fala do Rio Paraguai do cantor e poeta Orlando da Gaita, corumbaense, veio à mente nos momentos de agonia durante a viagem de barco que fizemos – eu, mais o fotógrafo Chico Ribeiro e o motorista Iran Buchara, equipe da Comunicação do Governo do Estado – de Corumbá com destino a Ilha Ínsua, dos índios guató.

A missão era acompanhar a visita do governador Reinaldo Azambuja, que inauguraria a reforma da escola estadual na reserva, nesta terça-feira. Chegamos de carro a Capital do Pantanal, no domingo, tempo bom e anormal para o corumbaense, com temperatura baixando. A viagem seria longa, por 340 km rio acima, sentido Norte, limite com Mato Grosso e fronteira com a Bolívia.

Amanhecendo o dia chegamos ao quartel da Polícia Militar Ambiental (PMA) e o mau tempo já indicava que seria uma viagem complicada. O sargento Alves nos avisou: “vocês estão preparados para tomar banho?”. Claro, estamos prontos, foi a resposta, sem entender muito bem a razão do questionamento.

Início da viagem de Corumbá à Ilha Ínsua: só alegria...

O barco com motor 85 hp faria em no máximo quatro horas o percurso da primeira etapa da viagem, até o Porto São Pedro, 170 km acima, onde almoçaríamos para seguir viagem por mais 80 km, até a reserva Acurizal. Aqui, a equipe pernoitaria de segunda para terça, já próximo da aldeia. Na Acurizal, limite de MS e MT pelas águas do Paraguai, já se encontravam outros integrantes da comitiva.

A saída do porto da PMA acionou o alarme: o motor do barco falhava (problema no tanque de combustível). Fazia 10 graus, tempo fechado, rio raivoso. Por um momento, o sargento Alves pensou em retornar à base, mas o barco reagiu, ganhou velocidade e fomos lá, subindo o rio. Alegria da tripulação, afinal, estávamos partindo para um lugar mágico do Pantanal, a Serra do Amolar.

Não durou muito para a viagem se tornar um pesadelo. O motor do barco voltou a falhar, não reagia a uma rotação máxima, e o “banho” começou, literalmente. Bem que o sargento avisou... O barco batia na onda e jogava água sobre nós. Mais a frente, uns 40 km, conseguimos uma lona para nos cobrir, mas já estávamos totalmente encharcados.

O tempo piorava, as ondas eram cada vez maiores e o barco seguia lento, feito o “tuque-tuque”, pequena embarcação dos pescadores movida à rabeta (motor 6,5 hp). A gente se enrolou nessa lona, mas amenizou apenas o frio, intenso. Eu pensei, agoniado, nas pessoas que morreram de hipotermia navegando nestas condições naquele rio.

Iran, ao fundo, reagiu com alívio ao enxergar Corumbá na sinuosidade do Rio Paraguai

Quebrei o silêncio lançando uma brincadeira: “um de vocês é o pé frio nessa viagem”, falei para Chico e Iran. Não obtive resposta, eles estavam cobertos pela lona. Eu, que já conheço a região depois de morar por 15 anos em Corumbá, fui de olhos atentos acompanhando a paisagem (e as ondas). Eles estavam mais preocupados em se proteger.

Na metade da viagem, Chico abriu um litro de uísque e sua prudente reação deu uma aquecida no corpo tremulo com goles a seco. Moral da história: a viagem até o São Pedro durou nove horas. Chegamos ao limite, foi um teste de resistência. O dono da pousada, o hospitaleiro pantaneiro Armando Lacerda, assustou-se com a nossa tremedeira e estado corporal.

Devidamente aquecidos, fomos lembrar com bom humor a aventura arriscada em cumprimento a uma missão. De pronto, abortei a viagem. Teríamos mais 170 km e seria um risco continuar. Até porque, para chegar à reserva dos guató, passaríamos pela assombrosa Lagoa Gaíva, cujas ondas estavam a mais de dois metros de altura.

Outras embarcações da PMA, com oficiais a bordo, também sofreram no caminho devido às condições climáticas, e uma delas, comandada pelo tenente Rondon, acabou pernoitando também no São Pedro. A segunda, com motor mais possante (150 hp), não teria passado. Ficou a dúvida e na madrugada do dia seguinte o tenente Rondon retornou alguns km para se certificar. Na realidade, essa tripulação integrada pelo coronel Jeferson, comandante da PMA, pernoitou mais a frente, em um barco-hotel.

O nosso retorno a Corumbá estava decretado: pela manhã de terça-feira. O fotógrafo Chico Ribeiro seguiu em um dos barcos dos oficiais a tempo de documentar a agenda do governador. “Não peguei um pingo d’água”, disse ele, ao ser indagado por nós sobre as condições da viagem. Conclusão: pegamos o pior barco. A descida pelo rio também foi dramática: ondas fortes, vento cortando o rosto e mais um banho.

A chegada foi um alivio, depois de mais seis horas no rio. Os policiais ambientais, receptivos, nos convidaram para uma piranhada. Liberamos a cerveja que não tomamos e preferimos o cobertor e um bom sono. O cansaço nos dominava, mais pelo estresse. Adrenalina pura. Concluímos que o pé frio da viagem foi nosso motorista. O Chico chegou ao destino e teve o privilégio de conhecer a majestosa Serra do Amolar.

Leia Também

Relatos de viagem

Conte sua aventura aqui!

Mais Relatos de Viagem

Megafone

Para viajar basta existir

Fernando Pessoa

Vídeos

Rio Negro, Caminho dos Ipês

Mais Vídeos

Eco Debate

MANOEL MARTINS DE ALMEIDA

Grande Circo Taquari

HEITOR RODRIGUES FREIRE

Significado do Solstício

WWF

Código Florestal: é hora de implementar, não de modificar