quinta, 22 de agosto de 2019
SAFARI

Encontro com a onça-pintada preserva e estimula o ecoturismo

12 FEV 2019 - 18h04Por FÁBIO PASCHOAL

A onça-pintada ocorria em todos os biomas brasileiros, mas hoje está extinta nos Pampas, e é classificada como criticamente em perigo na Caatinga e na Mata Atlântica, em perigo no Cerrado e vulnerável no Pantanal e na Amazônia. Nos biomas em que ela se encontra mais ameaçada, a perda e fragmentação de habitat leva ao isolamento das populações. Além disso, fazendeiros abatem os felinos para proteger seus rebanhos e, após décadas de perseguição e caça, a onça se tornou um dos animais mais difíceis de avistar na natureza.

Para mudar essa história, o paulista e ex-campeão de automobilismo Mario Haberfeld, 42, fundou o Onçafari em 2011 no Pantanal, a maior área alagável do mundo, com duas estações bem definidas: cheia e seca. Esse ciclo das águas impediu a agricultura, conservou a biodiversidade e, segundo o Ministério do Meio Ambiente, 86% da vegetação nativa permanece na área.

O projeto – uma das paixões do seu idealizador - tem como objetivo a preservação do Pantanal através do ecoturismo que possibilite a observação da onça-pintada. Desenvolvemos uma nova maneira de conservação de animais no Brasil, adaptando técnicas criadas na África do Sul. Essas técnicas consistem em habituar animais selvagens, como a onça-pintada, a fim de serem observados em seu habitat natural.

Animal já habituado com a presença humana e do veículo na reserva Caiman: trunfo pela conservação. Foto: Edu Fragoso

Atrair mais turistas

O Onçafari Ecotourism trabalha para habituar animais, como a onça-pintada e o lobo-guará, à presença dos veículos da equipe. À medida que os animais deixam de fugir na presença dos carros, não veem mais pesquisadores e visitantes como ameaça. A partir daí, é possível desenvolver o ecoturismo na região.

"Habituar animais" não quer dizer domesticá-los, mas, sim, mantê-los totalmente selvagens e livres, sem que se sintam ameaçados pela presença de veículos

Segundo Mario Haberfeld, a ideia é fazer com que as onças se habituem a carros de safári para que possam se comportar da mesma maneira que os felinos selvagens africanos, que ficam confortáveis em torno dos veículos. O objetivo é atrair mais turistas, aumentar o interesse dos fazendeiros em observação de animais, gerar novas oportunidades de trabalho para a população local, ajudar na conservação do felino e, consequentemente, do Pantanal.

“É necessário fazer as onças-pintadas – e toda a fauna e flora que coexistem com elas no mesmo habitat – mais valiosas vivas do que mortas”, afirma.

Animal no tronco da árvore faz pose para os turistas: sem métodos de domesticação. Foto: Edu Fragoso

Uma técnica utilizada com leopardos e leões na África do Sul há 30 anos está sendo adaptada para a onça-pintada no Pantanal. Um animal selecionado é seguido por um rastreador, dia após dia, até que ele pare de considerar o carro como uma ameaça. O ideal é escolher uma fêmea. Quando ela tiver filhotes vai ensinar tudo para os pequenos. Assim, a habituação aos veículos será passada para a próxima geração. O processo não envolve métodos de domesticação (como o oferecimento de comida) e os felinos selecionados permanecem selvagens.

Rastreadores africanos

O fundador da Onçafari trouxe rastreadores da South Africa’s Tracker Academy (Academia de Rastreadores da África do Sul), com a missão de treinar a equipe do projeto na arte de rastrear a vida selvagem para facilitar o encontro com o felino. Conhecer e perceber o ambiente – e o comportamento e as características dos sinais do animal que será seu alvo – é fundamental.

As onças se movem em campos de gramíneas e densas florestas com solo coberto por folhas secas, locais onde a formação de pegadas é difícil. O rastreador pode perder o seu caminho. Para encontrá-lo novamente, é preciso analisar a localização, interpretar os sinais e colocar-se na posição do animal que está sendo rastreado.

Mário Haberfeld coloca um colar com GPS em uma onça selecionada para o projeto da Onçafari

Todo o processo é realizado no Refúgio Ecológico Caiman, do empresário Roberto Klabin (fundador e presidente da SOS Mata Atlântica e da SOS Pantanal). Caiman fica localizado em Miranda, a 200 km de Campo Grande, e explora o ecoturismo consorciado com a pecuária.

Câmeras foram instaladas nas árvores para identificar as onças que habitam a fazenda e algumas fêmeas foram capturadas para a instalação de colares com GPS que mapeiam a área de cada indivíduo. Os animais selecionados para a habituação têm o território dentro do refúgio.

Essa é uma condição essencial, já que a caça – apesar de ilegal – ainda acontece no Pantanal. Fazer a habituação de um felino que pode entrar em outras fazendas seria um risco para o animal. Ele poderia se aproximar dos caçadores e seria um alvo fácil. Tudo está sendo acompanhado pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e pelo Cenap (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos e Carnívoros).

Encontro com a onça

Quando você tem uma equipe no campo, que estuda continuamente a vida das onças-pintadas e constrói um relacionamento com elas – dando-lhes nomes e tornando-se cada vez mais especializada em encontrá-las – as possibilidades são enormes. Isso pode levar o ecoturismo no Pantanal ao mesmo nível da África em termos de safáris, gerar empregos melhores e mais qualificados para a população local e abrir oportunidades para as mulheres, que não têm espaço na criação de gado.

Encontros com a onça-pintada vem se tornando usuais no Regúfio Caiman. Foto: Edu Fragoso

Também pode gerar interesse na criação de áreas protegidas para todos os tipos de espécies dentro de fazendas e tornar a observação de vida selvagem uma atividade lucrativa que pode ser conciliada com a pecuária extensiva.

No Refúgio Ecológico Caiman isso já é uma realidade. O número de encontros com onças-pintadas passou de 138, no ano de 2013, para 696, em 2017, houve um crescimento de sete para 88% nos avistamentos do felino por turistas no hotel (durante a estação seca, o número vai para 95,5%). Isso elevou a ocupação do destino em 120%, aumentando exponencialmente a necessidade de contratação de pessoas locais para trabalhar e, em sete anos, o Onçafari tornou-se autossustentável através de ecoturismo e doações.

Mas isso não é suficiente para Mario Haberfeld. Agora ele quer replicar todo o processo de habituação em outras partes do Brasil.

Fábio Paschoal é biólogo, jornalista, guia de ecoturismo e produtor de conteúdo da GreenBond e do Onçafari

www.oncafari.org

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