sábado, 25 de janeiro de 2020
VAGALUMEAR

A linguagem do pisca-pisca dos pirilampos, vagalumes e uauás

07 OUT 2017 - 06h01Por Miguel Flori Gorgulho/Folha do Meio Ambiente

As linguagens são muitas. A linguagem do fogo, das bandeiras, dos sinais, dos gestos, dos sons e das luzes. Quando uma pessoa está dirigindo um carro e quer indicar que vai entrar à direita, ela liga o pisca-pisca para a direita. Pronto! Quem está na rua, pedestre ou automóvel, já sabe o que significa aquele sinal.

Os animais também têm suas linguagens. Das mais variadas, como o homem. Por exemplo, a lanterninha do vagalume também tem suas funções. A vagalume fêmea pisca para avisar ao macho que ele pode se aproximar dela para o acasalamento. O pisca-pisca também serve para espantar os inimigos, pois toda vez que a luz pisca, produz-se uma substância tóxica no corpo do vagalume.  

Os cientistas buscam explicar melhor a função da lanterna dos vagalumes, que, certamente, funcionam como a forma de comunicação do pisca-pisca dos carros. O que se sabe é que um vagalume macho sobrevoa a vegetação à procura da fêmea para o acasalamento. Enquanto voa, vai piscando num ritmo próprio de sua espécie. Lá embaixo, a fêmea da mesma espécie vagalumea no mesmo ritmo, como que para avisar que o macho pode se aproximar. 

Besouros especiais

Um inseto chega perto do vaga-lume e ele está apagado. O vagalume dá o bote e faz sua refeição. Mas o pisca-pisca funciona também ao contrário. Como os vaga-lumes têm toxina em seu corpo, os predadores quando veem o pisca-pisca já sabem que eles são presas indigestas.

Na verdade, segundo os cientistas, os vaga-lumes não passam de besouros. Besouros especiais por emitirem luz. E eles formam três famílias diferentes: os elaterídeos, os fengodídeos e os lampirídeos. O que os diferencia são o lugar onde ficam os órgãos luminescentes e a frequência e também a cor da luz emitida.

Vagalumear metáforas e poesias 

Sou fascinado com uma bela metáfora. Até mesmo porque não há poesia sem metáfora. 

Clarice Lispector é a rainha das metáforas. Maravilhosa! Esta figura de linguagem é uma poderosa forma de comunicação. É como a luz do sol: bate n’alma e fica.

Incrível, mas uma das mais belas metáforas que já li é de um naturalista e geógrafo alemão chamado Alexander Von Humbolt, fundador da moderna geografia física e autor do conceito de meio ambiente geográfico. [As características da fauna e da flora de uma região estão intimamente relacionadas com a latitude, relevo e clima] 

Olha a metáfora que Humbolt usou para expressar seu encantamento pelo espetáculo dos vagalumes numa várzea em terras brasileiras.

Foto Green Trekker

“Os vagalumes fazem crer que, durante uma noite nos trópicos, a abóbora celeste abateu-se sobre os prados”

Para continuar no mote dos vagalumes (ou pirilampos) tem a música do Jessé “Solidão de Amigos” com a seguinte estrofe:...

“Quando a cachoeira desce nos barrancos 

Faz a várzea inteira se encolher de espanto 

Lenha na fogueira, luz de pirilampos 

Cinzas de saudades voam pelos campos.”

Lindo demais!  É a arte de vagalumear.

Cupinzeiros luminosos

A cientista Keila Eliza Grimberg, Licenciatura em Ciências Exatas da USP - São Carlos, explica que, no Brasil, o espetáculo da bioluminescência é oferecido pelos chamados "cupinzeiros luminosos". Estes cupinzeiros luminosos são encontrados na região amazônica e no cerrado, especialmente em Goiás.

Muito comum no Parque Nacional das Emas. A concentração maior de vaga-lumes está no Cerrado e o melhor período de observação é de outubro a abril. No caso dos cupinzeiros luminosos, o fato é que a fêmea depois de fecundada, deposita os ovos no pé dos cupinzeiros. À noite, elas "acendem" suas luzes, atraindo insetos para sua alimentação.

Pirilampos, vagalumes e uauás

A rigor, pirilampo não é sinônimo de vaga-lume. São duas espécies de famílias diferentes. Para quem quiser saber mais detalhes sobre as diferenças entre pirilampos, vaga-lumes ou uauás, o pesquisador Eurico Santos, em sua Zoologia Brasílica, esclarece: 

Pirilampo (Pyrophorus nyctophanus) – Coleópteros da família dos elaterídeos e subfamília dos pirophorineos. É conhecido por tuco na Argentina, nas Guianas e mesmo em algumas partes do Brasil. Há centenas de espécies, mas a P. Nyctophanus é a mais vulgar entre nós. Os órgãos luminescentes, dois discos branco-amarelados com aspecto de olhos, localizam-se nas laterais da base do pronoto. Suas larvas são também luminescentes e seus órgãos fotógenos espalham-se pelo corpo em numerosas pequenas áreas.  

Vagalume – Recebem este nome as várias espécies de coleópteros da família dos lampiridídeos (Lampyrididade) muito conhecidos pela luminescência branca esverdeada de que são dotados. A luminescência é exteriorizada através de áreas claras e translúcidas do tegumento do antepenúltimo (5°), do penúltimo e, às vezes, do último urosternito. Em algumas espécies, as fêmeas são ápteras. 

 Uauá – Reminiscência do linguajar tupi, que ainda persiste em algumas partes do Brasil. É como se disséssemos pisca-pisca na língua gentílica.

Bioluminescência 

O vaga-lume ou pirilampo é um inseto da família Lampyridae, muito conhecido por suas emissões luminosas. A espécie mais comum no Brasil é a Lampyris noctiluca - nessa espécie apenas os machos são alados, embora em outras espécies ambos sejam alados; alimentam-se, principalmente, de lesmas e caracóis.

As conhecidas emissões luminosas destes animais devem-se a uma substância que ao entrar em contato com o ambiente é oxidada e produz uma molécula energizada que, por sua vez, produz a luz. Esse fenômeno é denominado bioluminescência.

A enzima luciferase actua sobre o substrato (luciferina), estimulando a emissão de luz.

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