quarta, 12 de dezembro de 2018

Voluntários, escravos e pobres: os rostos anônimos da Guerra do Paraguai

04 DEZ 2018 - 16h47Por PAULO STUCCHI

Qualquer guerra é travada por anônimos. Os conflitos, decididos em gabinetes por políticos engravatados, são decididos na prática por uma série de rostos cujos nomes nunca serão conhecidos pela maioria.

Caxias, condecorado Duque e patrono do Exército Brasileiro, talvez esteja no topo dos expoentes militares do país, mas certamente a guerra, vencida com sangue nos campos, possui vários outros heróis.

Considerado um dos maiores, senão o maior, triunfo militar brasileiro, a guerra contra o vizinho Paraguai foi um desses cenários em que batalharam e tombaram muitos homens que deram suas vidas pelas cores do Império.

Emblemático também é a composição desses homens. Na época da eclosão do conflito, em 1864, o Brasil não possuía um exército profissional. O contingente militar imperial girava em torno de 18 mil homens, e o restante era formado pela Guarda Nacional - igualmente amadora, cujas patentes eram compradas. É verdade que, em um primeiro momento, a invasão de Solano López pelas terras de Mato Grosso motivou um sentimento patriótico. Contudo, conforme as dificuldades do conflito se tornaram evidentes, e os paraguaios se mostraram um adversário difícil de combater, o problema dos combatentes brasileiros tornou-se evidente. Apesar do investimento em tecnologia militar não havia capacitação dos soldados para tirar melhor proveito de armas e recursos bélicos. Além disso, a deserção aumentou exponencialmente após o conflito se estender para território paraguaio.

A solução? Apostar nos Voluntários da Pátria. Novamente após um furor patriótico inicial, a força voluntária almejada por Dom. Pedro II se esvaiu. Como recurso final, e contrariando a vontade de seus conselheiros e oligarcas, o monarca tupiniquim autorizou a alforria e alistamento de escravos nas fileiras do exército.

Tal fato foi fundamental para a vitória brasileira. Ainda que houvesse notória falta de habilidade bélica por parte dos alforriados (e outros párias da sociedade Imperial enviados para o front), a extensão da guerra deixou o Exército Paraguaio em desvantagem no que se refere a reposição de baixas. País pequeno e pouco povoado, a nação guarani agonizava para repor suas fileiras, fator de grande importância para a vitória aliada e a tomada de Assunção em 1° de janeiro de 1869.

Ou seja, por cima, o exército que batalhou no Paraguai era formado por renegados: escravos, mulatos, pobres, em sua maioria. Mas foi graças à morte de muitos deles que de modo anônimo tombaram nas planícies paraguaias, que o Exército Brasileiro se consolidou como instituição - militar e política.

Na batalha, ainda que as patentes colham os louros, o caminho da vitória sempre é pavimentado pelo sangue de desconhecidos. A Guerra do Paraguai representa não uma vitória de Voluntários da Pátria, como almejava o Imperador (posteriormente vítima de sua própria decisão e deposto pelo Exército), mas sim de escravos e homens pobres (muitas vezes, alistados à força) que conduziram as tropas nacionais à conquista de Assunção.

Paulo Stucchi é escritor, atuou como redator, jornalista e editor em jornais impressos e revistas

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