domingo, 21 de outubro de 2018

Eletrizante

08 DEZ 2017 - 15h33Por TASSO AZEVEDO

Imagine que existisse um veículo que, silenciosamente, acelerasse de 0 a 100 em menos de dois segundos e que rodasse mil quilômetros com uma parada no posto. E que tal um caminhão de 30 toneladas que acelerasse de 0 a 100 em 20 segundos com autonomia de 800 quilômetros, sem barulho, sem fumaça saindo do escapamento e com custo de frete menor que o dos veículos atuais?

Não precisa mais imaginar. Estes veículos já existem e, dentro em breve, estarão nas ruas. Serão produzidos pela Tesla, talvez um dos principais símbolos da revolução da eletrificação em curso na área de energia e transportes que se alastra pelo mundo e que se consolidou como irreversível em 2017.

Este ano, pela primeira vez ultrapassamos a marca de um milhão de veículos elétricos vendidos em 12 meses, dobrando o número de veículos vendidos em 2015. Várias montadoras anunciaram planos para parar de fabricar veículos a combustão, e países como China (30% do mercado global), Índia e Noruega anunciaram a intenção de proibir a venda de veículos a combustão até 2030.

O que antes parecia um fenômeno restrito a um nicho para veículos de passeio se espraiou rapidamente para vários seguimentos do transporte. Em Shenzhen, uma cidade de 11,5 milhões de habitantes na China, toda a frota de quase 15 mil ônibus no transporte público será convertida para veículos totalmente elétricos até o fim deste ano.

Na Noruega, onde mais da metade dos carros vendidos em 2017 é elétrica, empresas de transporte marítimo já operam com balsa e barcos de passageiro elétricos e projetam e constroem os primeiros transatlânticos elétricos com células de combustível de hidrogênio gerado a partir de energia eólica offshore e água do mar. A previsão é de forte redução dos custos de navegação ao longo dos próximos anos com base nessas tecnologias.

Isso é a economia de baixo carbono na veia. É para onde o mundo andará. A eletrificação está para o setor de energia e transportes como o smartphone está para a comunicação.

Enquanto isso, no Brasil se discute um novo regime de incentivos ao setor automotivo baseado em melhorias incrementais para a tecnologia atual visando a possíveis ganhos de eficiência. E nem estes ganhos são visíveis. Um Fiat 147 na década de 80 fazia os mesmos 10-15 quilômetros por litro que faz hoje o carro popular mais econômico. Na média, o km/litro do carros veículos hoje no mercado caiu, em vez de aumentar, pois os pequenos ganhos de eficiência nos motores foram neutralizados pelo aumento no tamanho e peso dos veículos.

Para completar o governo edita uma medida provisória para subsidiar exploração de petróleo.

Temos que sair deste atraso se não quisermos mais uma vez ficar a reboque da história.

* Engenheiro florestal, consultor e empreendedor social em sustentabilidades, floresta e clima

Publicado em O Globo, em 29.11.2017

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