segunda, 20 de janeiro de 2020

A Estrada Boiadeira e o Prêmio Piraputanga

24 NOV 2019 - 14h22Por BOSCO MARTINS

Nesse quarto ano, o Prêmio Piraputanga 2019, homenageará nessa segunda-feira alguns dos precursores do desenvolvimento de Bonito. Na região da Rodovia do Turismo, seu Nercy Soares e meu pai Waldemar Martins.

Pouca gente sabe que a Rodovia do Turismo que liga Bonito a ponte do Hormínio já foi estrada Boiadeira, na década de 30.

Quando eu, minha família e meu pai Waldemar Martins conhecemos Bonito (anos 90) nos encantamos pelo lugar e construímos no km 11 da Rodovia do Turismo, o primeiro Hotel Fazenda do munícipio. Demos a ele o nome do Rio Formoso, Rio Formoso Hotel Fazenda que atende turistas desde 1997.

Nos apaixonamos não só por Bonito e a beleza do lugar, mas especialmente por sua gente, de pessoas amáveis e receptivas.

Dona Rosita Ovando nossa vizinha e sua família, Constância, Eleutério (Téio), Paulina, a pequena e doce Poliana, fazem parte de nossa família e até hoje é nossa vizinha na região do "Formosão." O Padre Rosselvet, (Ilha do Padre), seu Nercy Soares (Balneário Sol) e também o Afrânio Jacques, entre outros, fazem da Rodovia uma das mais visitadas de Bonito. Um dos pontos mais conhecidos era o Camping Poliana e a Ilha do Padre. Vizinha a Ilha, na casinha de madeira, ficava o bolicho da dona Rosita, bem na barranca do Rio Formoso.

Desde os meados do século passado recebia os boiadeiros e os bonitenses para um descanso onde se refrescavam no rio, ao redor de frondosas árvores onde os passarinhos cantavam e procriavam na primavera. Conhecemos entre outras personagens bonitenses o velho boiadeiro seu Marcondes, tocador de comitiva.

Seu Marcondes, caboclo forte, sacudido - beirava setenta anos - e muito espiritualizado, recebia a todos com um largo sorriso e muitas histórias.

Foram muitas noites escura de verão, que passamos ali juntos eu e meu pai contando e ouvindo suas gloriosas histórias.

Corria o ano de 1996 e o velho Boiadeiro e dona Rosita nos convidaram para jantar, não sem antes oferecer-nos uma bela lapada de cachaça. Confesso ter sido o trago mais gostoso de toda nossa vida. Tinha um sabor de amizade, boas vindas e muita saudade - tanto nossa e de meu velho pai (que nos deixou há 5 meses).

Antes da janta com um bom carreteiro – um peão de sua comitiva empunhou a viola que trazia pendurada no arreio e pediu licença para cantar uma música em homenagem à estrada boiadeira, onde viveu praticamente toda sua vida.

Acendemos o candeeiro e uma suave música brotava de sua aveludada voz, tendo como fundo as labaredas de um fogão à lenha.

Continuamos a ouvi-lo com muita atenção e bastante emocionado. Pediu licença, levantou-se e trouxe-nos sua conservada e completa tralha de peão, na esperança de que, quem sabe um dia, o tempo voltasse.
Após tocar seu berrante com maestria disse-nos contemplativo:

"O progresso destruiu meu sonho. Passo os dias vendo caminhões boiadeiros. Onde está o grito da peonada? Cadê o toque do berrante? Tudo se acabou. Nem poeira eu vejo mais. É nesta solidão que a inspiração brota no meu peito e passo horas cantarolando as poucas modas de viola que aprendi nesse mundo. Só assim não vejo o tempo passar...!"

Nunca mais eu e meu pai esquecemos aquele dia. Partimos no clarão da aurora, mas seu berrante e as histórias do seu Marcondes e seus peões, de dona Rosita e seus filhos e amigos nunca mais nos deixaram.

Relembro essas histórias das barrancas do Rio Formoso no tempo em que aínda não havia rede de energia elétrica.

Por isso agradeço de coração a homenagem e o reconhecimento que o jornalista Edinho Neves faz ao meu pai Waldemar Martins, como um dos precursores do desenvolvimento (como todos aqui já citados) da rodovia do Turismo.

Meu pai Waldemar foi quem doou há quase 25 anos, "o chamado linh?o," à antiga Enersul (Energisa).

Só a saudosa estrada guardará a lembrança do cenário e do tempo que passou!

(*) jornalista, cidadão bonitense, escritor, produtor, diretor-presidente da Fertel (Fundação Luiz Chagas de Rádio e TV Educativa de Mato Grosso do Sul)

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