quarta, 12 de dezembro de 2018
5 PERGUNTAS

MEIO AMBIENTE: PESSIMISMO PARA DIAS MELHORES

04 DEZ 2018 - 08h33Por Marcus Tavares

José Augusto Pádua é professor do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordena o Laboratório de História e Ecologia. Especialista em História Ambiental, já publicou vários trabalhos dentro e fora do país, incluindo o livro Um Sopro de Destruição.

Claro e bastante objetivo, o professor diz que é otimista com relação à sobrevivência da humanidade no planeta. Um otimismo lúcido e crítico, já que o pessimismo poderia conduzir à inércia diante dos grandes desafios que temos que enfrentar.  Segundo ele, a humanidade pode construir uma relação inteligente e sustentável com o ambiente global.  “É necessário desenvolver uma consciência mais clara do nosso vínculo cotidiano com o mundo natural, superando a imagem de um meio ambiente distante da vida das pessoas”.

Defensor de um consumo consciente, Pádua afirma que certas aspirações consumistas são impossíveis de serem realizadas no contexto de um planeta finito. “É preciso estabelecer um padrão de consumo equilibrado, que promova de maneira democrática a qualidade de vida, a dignidade humana e a preservação do planeta”, destaca.

Acompanhe a entrevista:

1. Temos o que comemorar no 37º ano de celebração do Dia Mundial do Meio Ambiente?

José Augusto Pádua – Sim. Houve um efetivo crescimento quantitativo e qualitativo da consciência ecológica na sociedade global. Nas últimas décadas, verificamos uma proliferação de esferas de debate sobre o meio ambiente, tanto locais quanto regionais. Em paralelo, houve uma considerável expansão no número de instituições internacionais e nacionais voltadas para o tema, além de um avanço notável na pesquisa científica. Por outro lado, intensificou-se o sentimento de preservação ambiental na opinião pública, apesar de algumas oscilações ao longo do tempo. Acho que todo este avanço, na prática, mostrou que a questão ecológica não era e nem é uma moda passageira, como muitos críticos afirmavam nos anos 70. Creio que hoje a questão ecológica não pode mais ser vista como um movimento social específico, mas, sim, como um amplo movimento histórico. Trata-se, na verdade, de um aprendizado da humanidade global sobre como sobreviver neste planeta.  Também não podemos deixar de comemorar o surgimento de formas inovadoras de tecnologia e gestão, capazes de promover uma maior eficiência energética e ecológica. Mas é claro que nem tudo são flores. O aumento da consciência, infelizmente, não foi capaz de impedir um aumento da degradação ambiental.  Ainda vivemos uma contradição entre a teoria e a prática.

2. Quais são, de fato, os principais problemas que hoje enfrentamos no campo do meio ambiente?

José Augusto Pádua – Mais do que focalizar esse ou aquele problema, é importante adotar uma perspectiva sistêmica e integrada.  O mais grave é a vigência cotidiana de padrões insustentáveis de produção e de consumo, que muitas vezes passam desapercebidos.  É urgente repensar o funcionamento da economia e da sociedade como um todo.  Na cadeia da produção, transporte, consumo e descarte dos produtos há uma série de procedimentos que precisam ser redefinidos à luz dos limites do planeta. Estamos diante de questões bem objetivas, como o aumento da população mundial, a distribuição social injusta dos recursos da natureza, os grandes desperdícios de energia, a irracionalidade do sistema de produção de lixo. É importante focalizar as causas dos problemas, apesar dos efeitos chamarem muito mais atenção.

3. A mídia tem alguma interface com toda essa história?

José Augusto Pádua – Com certeza. Ao adotar um enfoque pontual e fragmentado dos problemas ambientais, a mídia contribui para isolar determinado assuntos, não estabelecendo uma ligação sistêmica com todas as demais áreas e instâncias da vida cotidiana.  De certa forma isso é compreensível.  Os problemas específicos são muito mais fáceis e atraentes para o público do que as visões integradas que focalizam as causas dos problemas. Por exemplo: o engarrafamento na cidade de São Paulo é notícia, mas raramente aparece na imprensa a informação de que 900 novos carros chegam, por dia, às ruas da cidade. Os engarrafamentos são consequência de um problema estrutural mais amplo, que não pode ser resolvido com medidas pontuais.  Outro exemplo: para cada árvore de mogno derrubada na Floresta Amazônica, outras 27, de várias espécies, também são destruídas. Essa informação – sobre o que chamamos de “fluxos ocultos” ou de “rastro ecológico” – raramente é divulgada pela mídia.

4. Neste cenário de implantação de políticas públicas, o Brasil está atrasado?

José Augusto Pádua – Não diria que o Brasil, comparativamente aos outros países, esteja atrasado na área ambiental.  Mas na minha avaliação, o país está, sim, perdendo algumas oportunidades, inclusive diante da atual crise internacional. Verifica-se, hoje, que muitos países, como Alemanha e Coréia do Sul, estão implantando uma agenda econômica verde. Estão investindo recursos públicos, necessários para superar a recessão, no estímulo às tecnologias limpas e à descarbonização da produção, no sentido de combater o aquecimento global. O Brasil poderia seguir o mesmo caminho. Recentemente, o Governo Federal anunciou a construção de 1 milhão de casas populares, mas sem associar o projeto à adoção de formas inovadoras e ambientalmente sustentáveis de construção.

5. O senhor acredita realmente num futuro promissor?

José Augusto Pádua – Sou otimista por falta de opção. Gosto muito de uma frase: “sejamos otimistas, deixemos o pessimismo para dias melhores”. Numa situação tão crítica como a que o planeta vive hoje, cheio de crises, desafios e possibilidades, temos que agir e ser otimistas. Caso contrário, ficaremos paralisados e sem rumo. A humanidade tem que aprender a viver de forma inteligente dentro dos limites do planeta. Deixemos o pessimismo para dias melhores.

Entrevista completa foi publicada no site www.revistapontocom.org.br

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