segunda, 16 de setembro de 2019

Antonio Nobre, o cientista da Amazônia

03 JUL 2019 - 20h02Por KARINA MIOTTO (*)

Antonio Donato Nobre é cientista e ativista de uma causa que abraçou há 36 anos, quando começou a pesquisar a Amazônia. Sua primeira viagem para a região foi em 1979. Ele era estudante de agronomia e, daquele ano até 1982, foi sete vezes à floresta pegando carona em aviões da aeronáutica. Até que ficou.

Nobre se tornou pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e viveu por 14 anos em Manaus, no Amazonas. Autor do relatório O Futuro Climático da Amazônia, sobre a importância da floresta e seu papel no contexto das mudanças climáticas, lançado em 2014, ele reside atualmente no interior de São Paulo e é pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Para atrair mais adeptos à causa tão urgente de proteger o que resta, em um “esforço de guerra”, como diz, Nobre acredita que o caminho é fazer os olhos das pessoas brilharem, divulgando as descobertas científicas por meio da linguagem acessível, capaz de despertar a criança interior dos adultos.

Em conversa com o Believe.Earth, o pesquisador revela o que o move a seguir adiante mesmo quando todas as estatísticas de desmatamento levam cada vez mais gente a pensar não haver muita saída. Para ele, há esperança.

1Believe.Earth (BE) – Como surgiu sua ligação com a Amazônia?

Antonio Nobre (AN) – Minha paixão pela Amazônia é melhor explicada pela sabedoria indígena, aquela que diz que somos todos filhos da Mãe Terra. Qual criança não é apaixonada pela mãe? No meio da exuberância amazônica, sinto-me acolhido e protegido. Não me recordo de ser diferente. Esse amor nasceu comigo. A floresta fala uma riquíssima linguagem em tons e variações e é preciso mais do que conhecimentos biológicos para captá-la em toda sua beleza.

2. BE - Como a ciência pode ser um canal para encantar, aproximar e despertar as pessoas para a Amazônia?

AN – Durante o auge da poderosa seca que atingiu o sudeste do Brasil em 2014, revisei, para produzir o relatório, muitos artigos científicos com boas explicações. Mas eles eram impenetráveis para o senso comum. A ciência, como qualquer empreendimento humano, tem sua liturgia, segue preceitos e busca manter-se fiel à sua tradição. Os cientistas temem perder a respeitabilidade, seu capital mais valioso – mas a tradição pode albergar temores exagerados, rigidez e isolamento.

Como explicar conceitos complexos sem utilizar o jargão científico? Como dizia Arthur C. Clarke, “uma tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica”. A mágica toca o imaginário infantil que todos temos. Graças a ela, acionamos os circuitos do encantamento no cérebro, despertamos campos de maravilha na cognição humana. Exponho essa lógica a meus incrédulos alunos e alunas de doutorado.

Cientistas inovadores são como crianças curiosas: seus olhos brilham ao descobrirem algo extraordinário. Esse brilho é contagiante e pode ser transmitido pela narrativa, pela contação de histórias. Um colega que revisou meu texto alertou, aflito, que a linguagem poética poderia comprometer minha imagem como cientista sério, mas eu estava convicto sobre o caminho que escolhera. Deu certo! Minha reputação não piorou. Creio que esse esforço tocou corações e mentes.

3. BE – O desejo de manter a floresta viva leva a quais desafios?

AN – Um deles é reconectar o saber científico com o saber popular. Estou envolvido em iniciativas para popularizar e aplicar conhecimentos e descobertas científicas para a proteção da vida sem descuidar do desenvolvimento acadêmico. Tento aproveitar as lições da natureza para inspirar o que fazemos na busca científica. No programa de doutorado onde atuo como professor, convido e desafio os alunos a serem inovadores, a aprender brincando e sem limites. Crianças pequenas são cientistas extraordinárias, buscam incessantemente entender o mundo, se encantam com suas descobertas e fazem tudo isso sem afetação nem vaidade. Adultos também podem ter olhos brilhantes pelo aprender. Outra frente em que atuo é a divulgação e o ativismo no mundo digital.

3. BE – Qual a maneira mais simples de explicar a importância da Amazônia para o equilíbrio do clima e a vida no planeta?

AN – Acredito que analogias com o corpo humano e seu funcionamento são as formas mais efetivas de capturar a compreensão popular para o metabolismo da Terra?. A Teoria de Gaia postula que a Terra, similar a um organismo vivo, contém sistemas de regulação e manutenção de condições ótimas para a vida. Os papéis desempenhados pela grande floresta no condicionamento do clima favorável têm analogias com pulmões, com o sistema endócrino, com o coração, com veias e artérias, com rins e fígado.

Quando algum órgão no corpo não funciona bem, o desconforto é imediato. O mal-estar é um alerta que busca sanar as causas. Quando um órgão para de funcionar, surge uma ameaça concreta à vida e a pessoa precisa de socorro médico. Que hospital pode socorrer um planeta? São 12 mil quilômetros de diâmetro viajando a 108 mil quilômetros por hora no espaço exterior, cujos órgãos vitais foram danificados ou eliminados. As florestas e todos os demais ecossistemas são órgãos vitais de Gaia. Levaram bilhões de anos para formar e transformar o ambiente terrestre, gerando as condições confortáveis para que o ser humano pudesse surgir e se desenvolver. Não existe transplante ou reparo possível para esses órgãos climáticos se os perdermos.

4. BE – O que poderia acontecer se a Amazônia deixasse de existir? Quanto tempo ainda temos?

AN – Entre desmatamento corte raso e degradação florestal, já perdemos quase metade da floresta original. O mais grave é que a degradação da floresta não vem somente das causas usuais, como exploração madeireira, pecuária e similares. Agora, o clima alterado pelas ações humanas está secando as florestas ainda intactas, gerando um efeito dominó em que a floresta ressecada pega fogo e é destruída, o que altera mais ainda o clima e compromete outras áreas preservadas. Em 2009, uma jornalista fez a mesma pergunta: “quanto tempo ainda temos?”. Respondi, de modo intuitivo, que seriam cinco ou seis anos até os desastres entrarem em escala exponencial.

Desde 2014, vemos a confirmação da previsão. Desde então, muitos repetiram essa pergunta e a resposta é: acabou o tempo! Dada a condenação social ao desmatamento e aos compromissos de preservação assumidos em negociações internacionais, é incrível que extensões imensas de floresta sigam sendo perdidas pela ação de seres humanos e extensões maiores ainda estão sendo degradadas por secas e fogo. Se queremos evitar a destruição final da Amazônia, não podemos mais fazer essa pergunta visando o futuro. É preciso fazê-la em reverso: “quanto tempo atrás teríamos que ter parado a destruição para não perdermos a Amazônia?”. Com isso, digo que parar o desmatamento é para anteontem e, dado o avançado da hora, somente parar o desmatamento não será suficiente para estancar a perda da floresta. É preciso um esforço massivo para restaurar a floresta onde ela foi destruída. E é viável: nos últimos 25 anos, a China replantou árvores em 800 mil quilômetros quadrados de seu território, área equivalente ao corte raso de florestas no Brasil nos últimos 40 anos.

5. BE – Como os brasileiros podem se engajar para proteger a Amazônia?

AN – Somente ser contra a destruição não basta. É preciso remover do poder os ideólogos do desmatamento, as poderosas elites ruralistas que patrocinam a destruição, que destroem no Congresso as leis de proteção, bloqueiam os órgãos de controle e até coordenam diretamente as máfias destruidoras. É preciso que a sociedade se engaje na mudança radical dos representantes no Congresso e nos governos, que comece a cobrar programas de ação de candidatos e partidos, que pressione o judiciário e agentes da lei para praticarem os princípios da Constituição e as leis de proteção ambiental.
Não menos importante e talvez crucial é que cada pessoa se conscientize sobre a procedência do que consome. Não podemos mais continuar a comprar soja, milho ou carne de áreas desmatadas e madeiras exploradas de forma insustentável.

*Trechos da entrevista publicada originalmente no site do Believe Earth

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